sábado, 21 de novembro de 2015

Uma foto já é o espetáculo. E se uma foto boa pode às vezes mentir sobre o espetáculo, prometendo o que não cumpre, um foto péssima, por seu termo, nunca engana - o espetáculo é ruim mesmo. O ator deveria saber fotografar-se a cada instante da cena, e a sua cena deveria ser uma sequência ininterrupta de fotogramas que ele, o ator, registra conscientemente para si próprio. Um bater de flashes de fora que lhe permitisse posar sempre, tomando a devida atenção para nunca denunciar essa tal máquina de fotografias invisível.  Porque a péssima foto sempre denúncia o péssimo ator quando é o ator que aparece na foto, com o seu jeito de ator, sua postura de ator, seu charme de ator. A boa foto que anuncia o bom espetáculo nunca é uma foto do ator. Ao contrário. É uma foto em que o ator não aparece, todo ele sumido numa postura antinatural, apagado pela máscara de sua face que não é aquela sua face que é lavada no espelho logo ao acordar na intimidade de sua casa. O bom ator que sabe posar para uma boa foto e que é o arauto de um bom espetáculo vive nessa exata contradição: faz força extrema para aparecer para então sumir. O exagero lhe confere a invisibilidade necessária para que a sua pose denote o que há de mais importante: a personagem. A péssima foto e o péssimo ator combinam-se na vaidade de vender um espetáculo cujo teatro está somente nas mãos da necessidade de fazer do ator o protagonista de tudo.


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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Faço teatro porque é tudo de mentirinha. Somente por isso... Já imaginou que inferno seria um padre acreditar que a hóstia é de fato o corpitcho do Redentor? 

É tudo fake, meu povo! Acostumem-se com a regra que rege a humanidade desde os imemoriais tempos: Quem souber enganar melhor, que engane!

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Gosto do ator-blasé. Esse tipo de ator que antes de pisar no palco e mostrar-se à plateia tem para consigo um átimo de consciência que o faz soltar um indistinto suspiro revelador: 'o que raios estou eu fazendo aqui?'. Gosto desse ator que é praticamente empurrado ao palco por alguma força misteriosa, ou mesmo por algum dever de contrato. Gosto do ator-blasé. Que sabe que mentir descaradamente demanda um esforço hercúleo, quase despropositado. Mas que mente mesmo assim. Mentindo sempre. Gosto desse ator que se desloca ao teatro com dificuldade extrema, acometido por um desânimo que lhe corrói as vísceras, quase como quem dirige-se ao patíbulo da forca para um sacrifício sem volta. Tenho ojeriza daquele outro tipo de ator: o ator intenso. Aquele que já na coxia é uma alma vibrante, histérica, totalmente embutido em si mesmo, pronto para dar tudo de si sem desconfiar do absurdo que é aparecer diante de outras pessoas ávidas por vê-lo desfilar na corda bamba. Tenho pavor desse tipo de ator. O ator intenso, genuíno. O ator do 'EU' íntimo. O ator dito 'verdadeiro', 'emotivo'. Esse tipo de ator que, enfim, perde o essencial do que o teatro tem a oferecer: a maravilhosa e igualmente dolorosa consciência do truque.

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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Senhores? Serei franco! Uma das abominações dessa nossa cena de misérias contemporâneas em que virou praxe ser mais burro do que uma fechadura de porta enferrujada - ou tão mimado quanto um ursinho Teddy Bear com medo do escuro -, aparece encarnada na figura batizada pelo lindo nome de 'preparador de atores'. Senhores? Serei franco! Sou ator e já vim ao mundo prontinho da silva, com cabeça, tronco e membros, uns grudados aos outros e em pleno vigor de funcionamento. Por um talento inato, sei apontar com o dedo para a esquerda e andar com minhas pernas para a esquerda (repito a mesma habilidade intrínseca quando o sentido muda da esquerda para a direita). E para completar - PASMEM! - minha massa encefálica ainda não sofreu danos o suficiente para que seja ela treinada feito poodle em número de circo. E caso queiram que eu chore - porque todo ator bom nos dias de hoje é esse ator que sabe derramar lágrimas tanto quanto sabe engasgar feito uma mula disléxica ao arriscar-se a ler uma única frase de um texto qualquer -, não é necessário que haja alguém para evocar minhas dores internas, aplicar regressões patafísicas até alcançar os fundilhos do raso de minha alma condenada, fazer laboratórios da ameba esquizofrênica a título de brotar o genuíno sentimento que só quando éramos amebas sabíamos expressar, ou, enfim, recorrer aos métodos de tortura avançada à la Fátima Toledo. Não! Sou deveras talentoso, senhores! Talentoso e gelado feito iceberg à deriva para tudo quanto é gente que confunde personagem com um subterrâneo íntimo de emoções a ser cavoucado (#stanislavskyNÃOmeREPRESENTA). Saco logo uma cebola do bolso e viro a Maria do Bairro num único estalo de dedos. Senhores? Serei franco! Vão terceirizar o MEU trabalho lá na casa da Mãe Joana e deixem-me entronado na minha santa paz. E caso queiram preparar alguma coisa, que preparem logo um strogonoff de frango com bastante creme de leite, que é o meu prato preferido.

Obs: ide todos pastar!


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Shakespeare é simplérrimo, é só reunir coragem para fincar os pés no chão e dizer o texto. Aí perguntam-me: mas e a complexidade da personagem? E eu devolvo: essa é a complexidade: não existe complexidade nenhuma, tampouco existe personagem. E não havendo personagem para ser complexa, não há jeito de haver complexidade alguma. Essa coisa de 'personagem' é fruto dessa bendita geração da psicologia-mimada do século XX-XXI, filha-herdeira dos tempos de glória do realismo-naturalista, prima-irmã do cinema americano, sobrinha-neta dos novelões cotidianos da Rede dos Marinho. Essa coisa de 'personagem' conferiu ao ator uma importância que ele não tem e nunca teve no teatro dito popular, o teatro que de fato levava (e ainda leva?) o teatro ao povo - digo, a urgência de revolver o âmago e de lá fazer brotar uma lágrima legitimadora de seja lá qual sentimento íntimo. Shakespeare é outra coisa. Shakespeare é popular, é teatro puro, teatro que não mente ser teatro. Shakespeare é 'de mentirinha', não é psicológico, tampouco realista-naturalista, quiçá adepto das frescuras sentimentais do cinema americano. Shakespeare é dificílimo de se dar conta porque há nele uma simplicidade retumbante. Não há em Shakespeare personagem alguma, há vetores de força, linhas de potência. E para dar conta disso são  necessárias algumas poucas coisas básicas: corpo e fôlego. É necessário também que o ator desenvolva um certo altruísmo voluntário que permita ao espectador completar com sua imaginação aquilo que é dito sobre as tábuas. O ator que encara Shakespeare é antes de tudo um atleta, um dançarino, um músico. Tudo isso, exceto um ator embrenhado em qualquer complexidade abstrata ou impalpável. É tudo tão simples! Basta acalmar o ego, isentá-lo de afetações lacrimosas, subir ao palco, respirar fundo, e enfrentar os leões. É isso! Shakespeare é mais parecido com uma arena de leões ávidos por abocanhá-lo do que com algum consultório médico em que há um divã preparado para você ruminar suas lamúrias e as lamúrias da existência humana.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Senhores? Sejamos francos! A personagem não sente
A personagem É!
Querer que a personagem SINTA antes que ela SEJA é satisfazer ao ator - é dotá-lo de uma estatura que ele não tem
E achatar todo o resto

O mal do teatro é satisfazer ao ator
E matar todo o resto

Teatro é bom quando a importância do ator é alçada através de sua completa desimportância


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Teatro tem que ser difícil, quase impossível.
Porque tudo o que é misterioso é intrincado, dificílimo.
E se não há mistério não há teatro. O bom teatro, ao menos.
A criança já nasce gostando do impossível.
O princípio das brincadeiras da criança parte daquilo que é inimaginável.
De difícil apreensão. O jogo é sempre difícil. O bom jogo, ao menos.
Nós, adultos, é que nos tornamos idiotas ao querer compreender tudo.
Ao querer facilitar tudo para que tudo seja compreendido.
Teatro tem pouquíssimo a ver com a intelecção do que quer que seja.
Os grandes poetas dramáticos são antes magos que comunicadores.
Teatro nenhum deveria preocupar-se em fazer com que a plateia entenda coisa alguma.
Deveria, ao contrário, convidá-la a perder-se na dificuldade do mistério.
As palavras que sobem ao palco deveriam ser dificílimas de se pronunciar.
Os gestos todos deveriam ser antinaturais.
Cada passo um tremendo esforço para se cumprir.
E se, ao cabo de tudo, ninguém entender patavinas nenhuma.
Ponto para o teatro.
Que cumpriu com o seu sagrado dever.
O bom teatro, ao menos.



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