sábado, 21 de novembro de 2015

Uma foto já é o espetáculo. E se uma foto boa pode às vezes mentir sobre o espetáculo, prometendo o que não cumpre, um foto péssima, por seu termo, nunca engana - o espetáculo é ruim mesmo. O ator deveria saber fotografar-se a cada instante da cena, e a sua cena deveria ser uma sequência ininterrupta de fotogramas que ele, o ator, registra conscientemente para si próprio. Um bater de flashes de fora que lhe permitisse posar sempre, tomando a devida atenção para nunca denunciar essa tal máquina de fotografias invisível.  Porque a péssima foto sempre denúncia o péssimo ator quando é o ator que aparece na foto, com o seu jeito de ator, sua postura de ator, seu charme de ator. A boa foto que anuncia o bom espetáculo nunca é uma foto do ator. Ao contrário. É uma foto em que o ator não aparece, todo ele sumido numa postura antinatural, apagado pela máscara de sua face que não é aquela sua face que é lavada no espelho logo ao acordar na intimidade de sua casa. O bom ator que sabe posar para uma boa foto e que é o arauto de um bom espetáculo vive nessa exata contradição: faz força extrema para aparecer para então sumir. O exagero lhe confere a invisibilidade necessária para que a sua pose denote o que há de mais importante: a personagem. A péssima foto e o péssimo ator combinam-se na vaidade de vender um espetáculo cujo teatro está somente nas mãos da necessidade de fazer do ator o protagonista de tudo.


...


...

Nenhum comentário:

Postar um comentário