terça-feira, 13 de junho de 2017

Tenho um interesse atávico (para usar uma palavra bonita) naquilo que eu faço, e porque quero fazer muito bem o que eu faço. Só por isso. O fazer o que eu faço é o que determina a minha extrema vaidade para aquilo que eu sou enquanto faço o que tenho de fazer. Agora, é evidente que o fio é extremamente tênue, que a minha atividade de fazer o que eu faço também pressupõe que eu esteja lá para fazer, e que é preciso vigilância constante para que a minha pessoa física não sobreponha à jurídica, aquela que está determinada a fazer antes de ser. Sou o que sou porque faço algo. O fazer determina a minha identidade, e não a minha identidade é que determina o meu fazer. Não sou quem sou porque sou quem sou. Ou assim espero, gostaria, que fosse.
Há no teatro uma disciplina poderosíssima que ensina a compreender que um passo adiante significa a exposição completa, outro para trás e você está banhado pela escuridão do anonimato. Que todos almejamos os holofotes é mais do que certo. Mas a qualidade do que é feito debaixo dele é consequência da sua inteligência quando escondido pela sombra dos bastidores.


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domingo, 11 de junho de 2017

Leio no jornal de hoje uma matéria sobre os preparativos de uma determinada atriz de novela para representar o seu papel na televisão. E o resumo é esse: se a personagem rebola as ancas dançando ao ritmo da rumba caribenha, é preciso, então, fazer laboratórios de rumba caribenha para que se possa rebolar as ancas e dançar rumba caribenha para não contrariar a vontade da personagem, que é uma contumaz dançarina de rumba caribenha. Se a personagem é harekrishna, lá vai a atriz rumar para retiros harekrishnas no topo da serra para imersões espirituais trajando saias cor-salmão e rabicó pendendo da cabeça raspada, afinal de contas, a personagem é harekrishna de verdade, e quanto a isso não há o que argumentar. E assim sucessivamente, o ator não é outra coisa senão um capacho da personagem. Mas um capacho mentiroso, um falso-modesto, porque esconde-se aí uma vaidade gigantesca que diz o seguinte: os sacrifícios do ator renderão a ele os méritos de anular a si próprio e dar vida à personagem. E, uma vez que as personagens de nossas novelas atuais são sempre a mesmíssima coisa - uma mistura de feijão sem tempero com empadinha de palmito sem azeitona verde -, o que sobra no primeiro plano é o nosso espanto em ver o ator se esforçar para se transmutar naquilo que ele não é, mas sempre foi: um rostinho que se adequa a total falta de carisma da figura que representa. Mas isso é o de menos, porque já não assistimos mais as novelas por conta dos seus enredos, personagens e afins. Já que o máximo de qualidade dramática apresentada é uma personagem que sabe dançar rumba caribenha, colamos nosso nariz na tela para comprovar se a atriz de rosto e silhueta invejáveis sabe, de fato, dançar rumba caribenha, ou, se ela cumpriu como prometeu os seus laboratórios de rumba caribenha (mais adiante ela aparecerá no Domingão do Faustão para explicar tim-tim-por-tim-tim as etapas do seu calvário em busca da correta rebolagem das suas ancas em direção à rumba-caribenha). 
Fico imaginando o ator de teatro que vai representar Édipo nos palcos... O quanto morreria de rir da cara de quem oferecesse a ele laboratórios de imersão na personagem, ensinando-o a como bradar AI DE MIM sem parecer piegas. 
O teatro tem essa dinâmica: o ator não precisa competir com a personagem. O ator jamais se equivalerá com o quilate poético de uma personagem forjada para os palcos. E isso por uma única razão: o ator de teatro sabe que ele sempre perde, que a peça se encerra com ele acabado, destruído, cansado, suado, depauperado. E ele também sabe que é justamente essa a regra para que se faça bom teatro: deixar o teatro passar.
O rostinho do ator de teatro que fosse se apresentar para uma entrevista seguindo os moldes dos depoimentos da referida atriz de novelas seria um tanto diferente, aposto: com mais rugas, linhas de cansaço, cabelos brancos... e aquele olhar de cinismo de quem viveu o suficiente para ter o direito de gargalhar de quem entende encontrar nele alguma fonte de explicação para o seu ofício de ator.


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sábado, 10 de junho de 2017

O que mantém o equilibrista na corda bamba é o perigo de cair, não o desejo de chegar em segurança ao outro lado. Aliás, ele só chega em segurança ao outro lado porque há uma chance sempre iminente de que ele caia. Não é o desafio o que o preenche, é, ao contrário, o perigo. A força que puxa o equilibrista para baixo é a força responsável por mantê-lo de pé. Acho o mesmo com o ator. A gente só pisa no palco porque sabemos que a chance de dar errado é enorme. E se chegamos inteiros ao final é só porque nos livramos momentaneamente da enrascada de tropeçar e ralar o nariz no chão. Não é o aplauso o que nos movimenta, a nossa vaidade é mais funda: é pelo perigo do fracasso, da vaia e do vazio, que aceitamos que as cortinas se abram...

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Eu tenho problemas com o enunciado. Teatro autobiográfico, para mim, é tão contraditório quanto entrar num restaurante para reconhecer firma dum documento. Ou ir pruma balada na expectativa de jogar uma partida de ping-pong no meio da pista. E o enunciado do teatro, para mim, está justamente na despersonalização do ator. Não para que ele deixe de ser a pessoa física que é  (a reencarnação e a mesa branca são outros departamentos), mas para que, desde o início de tudo, ele saiba rearticular um corpo que não é o seu corpo natural, uma voz que não é a sua voz natural, um desejo - ainda que impossível - de assumir o absurdo de ser um outro alguém, de se artificializar até o ponto de fazer sumir sua identidade. É desse absurdo que trata o teatro, que é da mesma qualidade da brincadeira da criança, do jogo lúdico, da senilidade dos loucos. Já imaginou pedir a uma criança para que ela pare com bobagem e seja verdadeira? Ou pedir encarecidamente a um louco que ele interrompa com suas sandices? A graça de ser louco está na loucura. A graça da criança é que ela tem o direito de brincar de ser quem ela bem quiser ser. A graça do teatro é que o teatro não equivale à vida (a loucura é fingida, a brincadeira é seriamente levada a sério).

Ou o ator é um portador de todo esse manancial forjado pela ficção que sobrepuja a sua individualidade, ou o teatro vira um templo onde se vende laranjas, uma feira livre que dá aulas de aritmética, uma quadra de esportes que distribui pãezinhos frescos recém saídos do forno...

Enunciado! Preservo o Enunciado! Teatro = disfarce = máscara = mentira = faz de conta = era uma vez...

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Adoro sentenças máximas do tipo isto é, isto não é. Por exemplo, se por um lado é difícil reconhecer quem é ator de verdade, por outro é facílimo saber quem se faz de ator mas a rigor não passa de um trambiqueiro de araque. Repare! Ator de verdade é quase sempre só ator. Digo quase sempre só ator porque quando o ator de verdade não é só ator é justamente porque ele desistiu de ser ator, o que o torna um milhão de vezes melhor ator do que o contingente de atores de araque que se dizem atores e que se apresentam como tal. Os atores de araque, ou seja, os que se dizem atores, são um milhão de coisas ao mesmo tempo em que são atores: eles dançam, cantam, apresentam programas, participam de programas, são entrevistados e entrevistadores, animam plateias e são animadores de plateias... e atores, evidentemente. Na falência de ser qualquer outra coisa melhor, o ator de verdade é só ator, seja por falta de opção, fardo ou missão de sabe-se lá qual karma mal ajambrado.

Quando você tiver dúvidas sobre quem é ator de verdade e quem é ator trambiqueiro de araque, comece por identificar quem são os últimos.

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terça-feira, 6 de junho de 2017

Ator faz Shakespeare, Sófocles, Beckett, Suassuna, Nelson Rodrigues, Pirandello. Ator tem essa curiosa função de reacender o que o tempo apagou. É um arqueólogo de monumentos a espera de serem novamente descobertos. O tempo do ator é o tempo do passado, do Era uma Vez... Não acho que o ator seja alguém conectado com o seu tempo. E caso assim pareça, é só para buscar as respostas lá atrás, e voltar cheio de poeira acumulada...

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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Acho uma maravilha saber que ao pisar no palco aqui, nesse palco daqui, o povo lá do Acre será impedido pelas regras da geografia de me ver e ouvir. E nada contra o Acre, que adoro justamente porque está lá em cima de nós, distante tanto quanto Rondônia e o Amazonas também estão. Mas poderia ser Pindamonhangaba ou Itapecerica da Serra, tanto faz. Adoro teatro também por uma razão negativa: o fato de alguns poderem me ver e ouvir pressupõe que um milhão de outros, pela distância que nos separa, estejam longe de mim, surdos e cegos para o que eu faço quando faço teatro. Acho um crime essas empresas que filmam teatro. Elas matam o teatro e tornam o ator de teatro um estúpido, um macaqueador imprestável. Teatro é bom porque impede que o ator seja conhecido para além de suas fronteiras misteriosas.

O resto é silêncio.

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