terça-feira, 13 de junho de 2017
domingo, 11 de junho de 2017
sábado, 10 de junho de 2017
O que mantém o equilibrista na corda bamba é o perigo de cair, não o desejo de chegar em segurança ao outro lado. Aliás, ele só chega em segurança ao outro lado porque há uma chance sempre iminente de que ele caia. Não é o desafio o que o preenche, é, ao contrário, o perigo. A força que puxa o equilibrista para baixo é a força responsável por mantê-lo de pé. Acho o mesmo com o ator. A gente só pisa no palco porque sabemos que a chance de dar errado é enorme. E se chegamos inteiros ao final é só porque nos livramos momentaneamente da enrascada de tropeçar e ralar o nariz no chão. Não é o aplauso o que nos movimenta, a nossa vaidade é mais funda: é pelo perigo do fracasso, da vaia e do vazio, que aceitamos que as cortinas se abram...
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sexta-feira, 9 de junho de 2017
Eu tenho problemas com o enunciado. Teatro autobiográfico, para mim, é tão contraditório quanto entrar num restaurante para reconhecer firma dum documento. Ou ir pruma balada na expectativa de jogar uma partida de ping-pong no meio da pista. E o enunciado do teatro, para mim, está justamente na despersonalização do ator. Não para que ele deixe de ser a pessoa física que é (a reencarnação e a mesa branca são outros departamentos), mas para que, desde o início de tudo, ele saiba rearticular um corpo que não é o seu corpo natural, uma voz que não é a sua voz natural, um desejo - ainda que impossível - de assumir o absurdo de ser um outro alguém, de se artificializar até o ponto de fazer sumir sua identidade. É desse absurdo que trata o teatro, que é da mesma qualidade da brincadeira da criança, do jogo lúdico, da senilidade dos loucos. Já imaginou pedir a uma criança para que ela pare com bobagem e seja verdadeira? Ou pedir encarecidamente a um louco que ele interrompa com suas sandices? A graça de ser louco está na loucura. A graça da criança é que ela tem o direito de brincar de ser quem ela bem quiser ser. A graça do teatro é que o teatro não equivale à vida (a loucura é fingida, a brincadeira é seriamente levada a sério).
Ou o ator é um portador de todo esse manancial forjado pela ficção que sobrepuja a sua individualidade, ou o teatro vira um templo onde se vende laranjas, uma feira livre que dá aulas de aritmética, uma quadra de esportes que distribui pãezinhos frescos recém saídos do forno...
Enunciado! Preservo o Enunciado! Teatro = disfarce = máscara = mentira = faz de conta = era uma vez...
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Adoro sentenças máximas do tipo isto é, isto não é. Por exemplo, se por um lado é difícil reconhecer quem é ator de verdade, por outro é facílimo saber quem se faz de ator mas a rigor não passa de um trambiqueiro de araque. Repare! Ator de verdade é quase sempre só ator. Digo quase sempre só ator porque quando o ator de verdade não é só ator é justamente porque ele desistiu de ser ator, o que o torna um milhão de vezes melhor ator do que o contingente de atores de araque que se dizem atores e que se apresentam como tal. Os atores de araque, ou seja, os que se dizem atores, são um milhão de coisas ao mesmo tempo em que são atores: eles dançam, cantam, apresentam programas, participam de programas, são entrevistados e entrevistadores, animam plateias e são animadores de plateias... e atores, evidentemente. Na falência de ser qualquer outra coisa melhor, o ator de verdade é só ator, seja por falta de opção, fardo ou missão de sabe-se lá qual karma mal ajambrado.
Quando você tiver dúvidas sobre quem é ator de verdade e quem é ator trambiqueiro de araque, comece por identificar quem são os últimos.
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terça-feira, 6 de junho de 2017
Ator faz Shakespeare, Sófocles, Beckett, Suassuna, Nelson Rodrigues, Pirandello. Ator tem essa curiosa função de reacender o que o tempo apagou. É um arqueólogo de monumentos a espera de serem novamente descobertos. O tempo do ator é o tempo do passado, do Era uma Vez... Não acho que o ator seja alguém conectado com o seu tempo. E caso assim pareça, é só para buscar as respostas lá atrás, e voltar cheio de poeira acumulada...
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segunda-feira, 5 de junho de 2017
Acho uma maravilha saber que ao pisar no palco aqui, nesse palco daqui, o povo lá do Acre será impedido pelas regras da geografia de me ver e ouvir. E nada contra o Acre, que adoro justamente porque está lá em cima de nós, distante tanto quanto Rondônia e o Amazonas também estão. Mas poderia ser Pindamonhangaba ou Itapecerica da Serra, tanto faz. Adoro teatro também por uma razão negativa: o fato de alguns poderem me ver e ouvir pressupõe que um milhão de outros, pela distância que nos separa, estejam longe de mim, surdos e cegos para o que eu faço quando faço teatro. Acho um crime essas empresas que filmam teatro. Elas matam o teatro e tornam o ator de teatro um estúpido, um macaqueador imprestável. Teatro é bom porque impede que o ator seja conhecido para além de suas fronteiras misteriosas.
O resto é silêncio.
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