domingo, 29 de maio de 2016

Acredito piamente que só sou ator porque me é complicadíssimo 'ser natural' na vida. É como se a vida me exigisse um fingimento do qual não consigo dar conta. Uso a artificialidade do palco para fazer-me consciente da minha inadequação, e aí sim, dobrando os fingimentos, consigo extravasar uma certa potência antes acumulada e reprimida. Nesse sentido, o teatro me é terapêutico ao ensinar que tudo, absolutamente tudo, é mentira. E que 'ser natural' é simplesmente um 'ser mentiroso' sem estar consciente de que mentimos. E o teatro também me é um tremendo fardo, porque a consciência é um estado de alerta cujo preço a ser pago traduz-se numa grande dose de sofrimento. O que é preferível: mentir sem saber que mentimos, ou mentir de posse das artimanhas do mentiroso? Já não é mais possível escolher. 

Ser ou não ser, eis a questão... (já respondida!)

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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ser ator de teatro é fracassar tendo a consciência de que se fracassa. E é só isso que pode redimir o ator: a consciência de que sua única certeza é a de fracassar. Porque algo que precisa ser reiterado toda santa noite e diante de pessoas diferentes é um sinal bastante evidente de que não há jeito de conseguir perpetuar-se, que o fim iminente é não só um destino previsível como também desejável. E é por isso que o fracasso não é um diagnóstico de derrota, mas de vida. Morre-se para poder viver. A impossibilidade de habitar uma ideia que atravessa o tempo e imortaliza o seu autor, conferindo à presença física do corpo vivo o sentido maior de uma existência, é o que imprime ao instante, ao que acontece agora, nem antes nem depois, uma razão superior às vocações de eternidade. Vive-se mais plenamente na medida em que sabemos que estamos morrendo. Esse é o principal ganho moral e ético do ator: ele desconfia de verdades absolutas e infinitas, daquilo que é impossível tocar porque foi feito para não ser tocado. Ao mesmo tempo em que preserva para consigo um mistério grandioso, que é o mistério da própria vida: por que insistimos em existir em um hiato tão breve de tempo? E sabendo que será breve, por que ainda assim insistimos em não abandoná-lo? Por que entramos em cena? Por que? 

Ser ou não ser, eis a questão.



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domingo, 22 de maio de 2016

Faça uma pressão excessiva nas cordas e a coisa desanda. Relaxe demais a mão do arco e o edifício desmilingue. O violino é como o ator. Trata-se de encontrar uma justa medida, um caminho do meio, que por si só já é um paradoxo de mistério: uma tensão relaxada, ou um relaxamento tensionado.

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sábado, 21 de maio de 2016

A maior das bênçãos da qual o ator é portador é que é dever dele ser ridículo em seu ofício. E quanto mais ridículo melhor. Quer coisa mais ridícula que um ator recitar o 'ser-ou-não-ser-eis-a-questão' diante de uma plateia, tentar convencer a todos de que estamos na Dinamarca, e que ele não é o Fulano-de-Tal e sim o próprio Hamlet encarnado? Coisa pateticamente ridícula. E esse ridículo é pedagógico. Porque viver o ridículo é precaver-se dele fora do campo da ficção, onde ser ridículo pode ser - e é na maioria das vezes - um grandessíssimo atestado de burrice. Porque chacoalhar um pato amarelo de borracha exigindo o fim da corrupção - e acompanhado de outros chacoalhadores de patos de borracha amarelo - é algo, no mínimo, estupidamente ridículo. A cena é ridícula. E é um ridículo da pior espécie que pode haver de ridículo porque é uma cena emoldurada sem a consciência do ridículo da qual o ator lança mão em cada passo que dá quando ele entra em cena. O ator é um ser iluminado porque faz teatro e tem consciência do teatro, e sabe o precioso significado de ser ridículo dentro e fora dele. Saber quando vale a pena ser-ou-não-ser-ridículo é uma pérola de valor inestimável. Eis a questão.


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Suassuna ensina-me que é do dever do artista desenvolver uma absoluta instransigência com relação a tudo o que nos bate à porta pedindo permissão para entrar. Que o artista tem como obrigação moral defender o seu território. Que o chão onde se pisa é fundamental para que se desenvolva a vocação do ofício do artista. É sagrado pertencer à algum lugar e ser fiel a este lugar. Suassuna ensina-me a maravilhosa arte de mandar bananas para tudo o que não diz respeito a uma verdade interior, coisa que lateja na individualidade de uma região, de um povo, ou mesmo dentro disso que eu sei que sou: uma região imensa e invisível, um povo numeroso e silencioso, enfim, um território que é o meu território, e que pode ser o território de todos somente na medida em que ele permaneça sempre assim: o meu querido e inviolável território. 

Ou o artista rema sozinho, ou não rema com ninguém.


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Fernanda Montenegro disse em recente entrevista que o pipoqueiro que marca ponto diante do teatro ganha mais do que os artistas do palco. Ela está certa. E se a pipoca for doce e também salgada periga o pipoqueiro ganhar mais do que a soma dos rendimentos do elenco inteiro. E acrescento eu: o pipoqueiro tem também mais clientela que o ator das ribaltas. Hoje fizemos um espetáculo para exatas 23 pessoas num teatro com capacidade para mais de 200 na cidade de Itatiba. Um teatro lindíssimo. E vazio. Uma peça com indicações a prêmios no currículo, casas cheias em temporadas pregressas aqui em SP, ótimas críticas nos jornais... Mas o que isso importa? Para que serve ir ao teatro? Quem sai de casa para ir ao teatro? O teatro é um acontecimento que vale a pena ser divulgado? Para que fazer esforço pedindo atenção para uma coisa que já deveria ser interessante por princípio? Que tipo de investimento capenga é esse cujo produto nem bem consumido já evapora no exato instante em que deixa de existir? Pode parecer vaidade ferida, desejos de aplausos, recalque do fracasso não admitido, teimosia de gente teimosa - e talvez seja isso tudo junto. Mas é também uma outra coisa, um grito de revolta ao título de retumbante carência de necessidade e urgência ao qual o teatro foi contemplado nos últimos tempos. O galã da novela precisa aportar seus perfumes no teatro para que a casa possa lotar de espectadores? Quase sempre espectadores histéricos e cujo motivo de vida é prezar pela histeria na submissão ao ídolo famoso... Ou então faz-se necessário estruturas mirabolantes de cenários e maquinarias, figurinos e purpurinas, passos marcados e gogós afinados, pandarecos e trecos, tudo importado do Uncle Sam e com o nobre intuito de impressionar cada vez mais os olhos daqueles que tanto já se impressionaram com a mesmíssima repetição do impressionante-nunca-antes-visto-na-face-da-Terra? Quando foi que o teatro deixou de ser teatro (encontros humanos!) para virar programa de auditório, cassino do Chacrinha ou desfile fashion? E por que insistimos em continuar? Por que? 

Nossa miséria política e ética não é fruto de uma completa ausência de encontros marcados fisicamente nas atividades de teor simbólico? E substituídos pela lambeção virtual e televisionada de gente de sorriso plastificado, portadora da mesma melodia enjoativa da voz, tão vazia de substância quanto transbordante de coisa nenhuma... E é a isso que depositamos o nosso modelo mais bem acabado do que seja o 'artista'?

As tetas de que nós - atores de teatro - mamamos, são tão murchas quanto a inteligência daqueles que não desgarram das tetas alheias para mamar até explodir de tanto gorfar.

Obs: a referida apresentação do espetáculo para as 23 pessoas e mais de 100 cadeiras vazias foi uma das melhores sessões que já fizemos. Há essa misteriosa força que nos leva adiante e não computa valores de espécie alguma a partir do instante em que a cortina abre suas franjas.

Viva o teatro! Viva o teatro sempre!


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sexta-feira, 20 de maio de 2016

A grande personagem será sempre aquela que está por ser representada. E assim deverá permanecer: uma projeção do impossível. E mesmo aquilo que é tangível deve sustentar uma proporção equivalente de ausências. O ator que representa uma personagem carrega consigo a frustração constante de nunca conseguir tocá-la. E é por isso que ele insiste em continuar representado: para nunca se livrar da tristeza de saber ser impossível representá-la. A felicidade por ser artista é dividida com a equivalente angústia da consciência da derrota. Que é como a vida: vive-se para viver, mas também para confirmar que foi impossível ter vivido.


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