quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Uma peça de teatro é só uma peça de teatro. Se fosse uma ponte, deveria precaver-se de não ruir. Se fosse um prédio, que fosse sólida o suficiente para não desmoronar. Um veículo de transporte? Então haveria de sustentar as engrenagens e assim evitar enguiçamentos. Uma peça de teatro não é nada disso. Não responde a urgências ou utilidades concretas. Uma peça de teatro não responde a utilidade alguma. É só e tão somente uma peça de teatro. Não carrega expectativas prévias, não promete soluções futuras, não traz consigo manual algum de funcionamento. Uma peça de teatro é só uma peça de teatro que começa, dura, e acaba. É nessa transitoriedade efêmera onde finca o seu direito de existência. Não é preciso conferir outro grau de necessidade e importância a uma peça de teatro do que aquele materializado num sopro que se dissolve no ar. E caso imaginamos que um sopro que se dissolve no ar é pouco para uma peça de teatro é porque ainda não entendemos o que é um sopro, tampouco entendemos o que é uma peça de teatro. A rigor, tudo isso tem a ver com uma certa consciência do que é a vida. Uma peça de teatro é uma pequena caixinha de música que recupera concretamente a insignificância da nossa importância. O sopro é dessa qualidade. Não somos solistas de orquestra alguma. Não somos protagonistas de nada. Não temos direito a reivindicar monólogos ou plateias que nos aplaudam. Uma peça de teatro é só uma peça de teatro. E a sua relevância está justamente em provar que é apenas um sopro que se desmancha no ar. O ator é feito dessa matéria de consciência da sua inutilidade, de ser ele, o ator, mais uma minúscula haste metálica no meio de uma igualmente minúscula caixinha de música.



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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

No fim da tarde, há pouco, ligam-me de uma agência publicitária cujo nome ao certo não me recordo mas que parecia, certeza absoluta!, invocar a marca de algum chiclete tutti-frutti com cheirinho gostoso, perguntando se eu aceitaria fazer um teste para emprestar a minha voz para o cliente do produto X do ramo das necessidades contemporâneas Y (porque, veja bem, é preciso encontrar a voz certa para o produto X do ramo das necessidades contemporâneas Y). Como descobriram o meu contato eu não faço ideia. Recusei. Insistiram na ideia ao revelar o quanto eu ganharia de cachê caso fosse aprovado (porque, veja bem, não basta fazer o teste para o produto X do ramo das necessidades contemporâneas Y, é preciso ser aprovado!). Recusei uma segunda vez. Lembraram, então, que havia um cachê teste de 100 reais (porque, veja bem, há quem empreste a voz, ainda que a voz não seja aprovada no teste para o produto X do ramo das necessidades contemporâneas Y, pensando somente em abocanhar os 100 reais do cachê teste). Recusei pela terceira e última vez. Agora, aqui no shopping onde estou para assistir a um filme, e cujo mesmo prédio abriga uma conhecida escola de formação para atores (porque, veja bem, fazer compras e pensar em arte são coisas que devem caber perfeitamente na mesma sacola) vejo, então, um anúncio de 2 atores - desses atores de rosto hidratado, símbolos perfeitos da saúde folhetinesca das telas de TV - estampados em fotos enormes e trajados cada qual com uma camiseta em que a seguinte inscrição aparece em letras garrafais: 'Escola X, EU FIZ'. Ao lado do referido anúncio, um outro anúncio faz propaganda do que está atualmente em cartaz no teatro que habita a mesma instituição de ensino (que habita o mesmo prédio que o shopping, ou que é o próprio shopping): uma peça escrita pelo dramaturgo Gabriel Chalita.
Neste instante, aqui onde estou, sorvendo um café antes de entrar na sala de exibições para assistir ao filme, penso cá comigo se eu não deveria fazer um workshop com algum boneco de posto de gasolina (daqueles infláveis que se erguem pela base através da ventoinha poderosa de ventiladores gigantes) para aprimorar, enfim, as minhas parcas habilidades de intérprete dramático.

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Olha, faz tempo que aprendi a desconfiar de tudo quanto é conceito. Adoro filosofia. E adoro filosofia justamente porque a filosofia é um balaio de gatos danado, um criando um conceito diferente do outro, e salve-se quem puder. Uma eterna nuvem de abstração tormentosa entre Palmeiras versus Corinthians. Mas, por alguma razão, os filósofos são os primeiros a desconfiar de que o conceito que defendem consegue, de fato, resumir uma mínima possibilidade de alcançar a verdade. E lá se vão eles em busca de novos conceitos, contrariando, às vezes, até mesmo a si próprios, aos conceitos que criaram como ponto de partida no início de suas empreitadas. Os filósofos são essas máquinas invejáveis de criar conceitos e de destruir conceitos. Vivem, os filósofos, sempre nesse intervalo de desconfiança eterna, arquitetos do edifício que eles mesmos dão conta de por abaixo. Por isso que a filosofia é bastante irmã de outro terreno não menos barulhento e insolúvel: a arte. Ambas, arte e filosofia, são laboratórios de consciência. Produzem conceitos e universos que se desmancham no ar tão logo aparecem. E nada interferem na vida. E é por essa razão que arte e filosofia são departamentos que me enchem os olhos. Porque ambas sabem, a arte e a filosofia, que a vida corre o seu fluxo natural, e que tentar domá-la, doutriná-la com conceitos forjados pela imaginação, razão ou ignorância, que reorientar o curso natural da vida, dos desejos e pulsões imanentes à vida, é, enfim, de uma estupidez espantosa. E quando vejo um tantão de gente preocupada com a legitimidade de um conceito enquanto espelho de determinado ideal concreto de comportamento, seja ele o conceito de família ou do raio-que-o-parta, ocorre-me uma vontade maluca de oferecer aos donos dessa contenda inútil um pirulito de tutti-frutti para lamber. Porque, no frigir dos ovos, a idade da creche ainda não foi superada. Idos anos em que sujar a fralda, parece-me, não serviu de exemplo algum para que o cérebro de hoje soubesse aguçar os sentidos e saber separar aquilo que é fedorento daquilo que não é.



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A boa personagem obriga o ator a dançar...


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sábado, 26 de setembro de 2015

Ser ator tem infinitamente mais a ver com arquitetura do que com o talento para escarafunchar a alma humana. Quem faz esse papel é o dramaturgo, os poetas, os filósofos. Nós, atores, somos no máximo peões de obra. O que já é de uma beleza sublime.



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Senhores? Serei franco. Tenho desejos inconfessos de pendurar de cabeça para baixo e servir para os abutres almoçarem quem usa o termo 'nasceu' na ocasião de uma estreia de peça de teatro. Senhores? Convenhamos! Uma peça de teatro não nasce, só estreia mesmo. E quando acaba, não morre não, só vira purpurina. Porque essa coisa de 'nascer' remete imediatamente a rebentos remelentos, que choramingam e sujam as fraldas minuto sim minuto não. Senhores? Querendo procriar, que procriem! Mas deixem o teatro longe da maternidade das vossas querências. Ou melhor! Não procriem não! O que não falta nesse palco da existência são bípedes falantes iguaizinhos a vós que estais aí a matar o tempo ao ler essa nota de profunda relevância. E, lembrem-se: ao subir ao palco, não nasçam! Pelo amor de Deus Pai!



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Sentado aqui onde estou, numa cadeira vazia dentre tantas outras cadeiras vazias da plateia do teatro onde em breve as luzes se acenderão para mais uma sessão da peça em que participo como ator... O palco também está vazio. Tudo silencioso e sem vida. Somente eu e mais ninguém. E penso cá comigo quantos outros tantos atores como eu já pisaram nessas mesmas tábuas. E quantos outros tantos hão de me suceder nesse simples ato de pisar nessas mesmas tábuas. E para quantos outros personagens servirão de intérpretes como eu o faço agora. Talvez, quem sabe, o mesmo personagem que hoje cabe a mim representar e que lá atrás já foi vestido por outros. A grandeza do teatro, parece-me, não está tanto nesses instantes em que algo acontece - a encenação propriamente dita -, mas nessas fissuras ocas de tempo, feito sincopas, nas fronteiras de um antes e um depois, quando a espera de que algo aconteça, ou o luto de escuridão que sucede o acontecido, inaugura uma consciência especial: a de que somos igualmente minúsculos e poderosíssimos, parte ínfima e integrante de um todo eterno e a própria materialização dessa força de potência eterna. Aí está o vínculo espiritual do teatro. É preciso que haja um templo para que se perceba isso. E o templo já é o teatro na sua arquitetura de teatro. Só o teatro, e basta. Quando Shakespeare diz que o mundo é um palco, reiterando que somos nós personagens de um enredo cuja vida atualiza toda vez em que o sol desponta no horizonte, deveria ele ter completado a sentença invertendo os termos, assim: o palco já é o mundo. Porque toda a infinita grandeza da natureza humana está condicionada à certeza de que somos marionetes articulados por sabem-se lá quais fios invisíveis. Se o grande está contido no pequeno (o mundo é um palco), o pequeno (o palco) é o responsável por engendrar o que em nós não pode caber no interior de qualquer dimensão concreta.


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