Uma das coisas mais legais de se fazer teatro é esse momento em que tudo está terminado, figurinos no cabide, refletores desligados, companheiros de cena cada qual sabe-se lá onde, público evaporado da sua frente, palco e plateia mudos e apagados num silêncio absoluto... e tu sozinho em casa, lambendo uma pizza de mozarela sem precisar triangular a azeitona com ninguém.
Teatro é tão bom que depois de fazer teatro continua bom, senão ainda melhor.
Viva Dionísio!
....
.....
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
Conversando com um ator alemão, professor de teatro da minha sobrinha, e ele me diz que morava numa cidade na Alemanha cuja população era de 30 mil habitantes e que havia no local um teatro municipal com um corpo estável de atores contratados pelo governo em regime CLT, e que, anualmente, revezavam-se diretores de todo o país para montar diversos espetáculos de variadas estéticas e linguagens. O número total de espectadores, finda a temporada, batia 70 mil (relembrando: a cidade abrigava 30 mil habitantes).
Compreenderam o porquê de elegermos o Capitão para o cargo máximo dessa Terra-das-Bananas? Entenderam o porquê da Regina Duarte ser a eterna namoradinha do Brazyl? Entenderam o porquê desse brejo-tropycal arregimentar legiões de mulas-acéfalas para gritar aleluia senhor Jesus dentro do Templo do Salomão? Entenderam o porquê do Fiuk despontar como um baita ator ao lado da Dri Galisteu?
Mas o importante é ter DRTÊ, né gentê? Ah, que beleza é ter um carimbão na carteira de trabalho! Quantos books e videobooks a gente não descola com um carimbão na carteira de trabalho! Haja propaganda de margarina pra dar conta...
Obs: o ator alemão em questão, o professor de teatro da minha sobrinha, frequentou um UNIVERSIDADE para se tornar ator. Curioso, não?
...
.....
Compreenderam o porquê de elegermos o Capitão para o cargo máximo dessa Terra-das-Bananas? Entenderam o porquê da Regina Duarte ser a eterna namoradinha do Brazyl? Entenderam o porquê desse brejo-tropycal arregimentar legiões de mulas-acéfalas para gritar aleluia senhor Jesus dentro do Templo do Salomão? Entenderam o porquê do Fiuk despontar como um baita ator ao lado da Dri Galisteu?
Mas o importante é ter DRTÊ, né gentê? Ah, que beleza é ter um carimbão na carteira de trabalho! Quantos books e videobooks a gente não descola com um carimbão na carteira de trabalho! Haja propaganda de margarina pra dar conta...
Obs: o ator alemão em questão, o professor de teatro da minha sobrinha, frequentou um UNIVERSIDADE para se tornar ator. Curioso, não?
...
.....
Ainda na faculdade, lembro-me de um exercício em que eu representava Édipo e a minha colega a Jocasta. Dávamos as mãos e o texto seguia. Nesse exato instante - sinto como se fosse hoje! - minha companheira de cena começou a acariciar suavemente os meus dedos enquanto dizia suas falas, um gesto invisível à plateia, que funcionava para ela acessar sei-lá-o-quê de verdade da personagem ou dela mesma.Agradeço a ela até hoje. Prometi a mim mesmo NUNCA fazer teatro-de-relação, desses em que o olho-no-olho convida ao embargar da voz, ao turbilhão das lágrimas, ao aconchego da emoção que bate forte no peito. Agora que o tempo passou, já posso ser sincero: minha vontade foi a de desferir um tabefe com luvas de pelica na face rosada da minha interlocutora, e dizer: SAIA JÁ DAQUI, MAMÃE... ops, ou melhor: RAINHA, SUA SAFADA!
...
....
...
....
Há um personagem de Tchékhov, talvez o médico Astrov do Tio Vânia, mas posso estar equivocado, que diz em certo momento da peça que daqui a 100 anos seremos todos esquecidos.... Não é uma maravilha poder reunir essa inteligência rasteira - e por isso mesmo dotada de uma filosofia ímpar - que reconhece o minúsculo e o ridículo de nossas vidas banais? Todos: o papa Chico, o pedreiro José, o Trump, a Jana Paschoal, eu, você, todos nós seremos varridos do mapa pela deslumbrante narrativa implacável do tempo. Agora, imagine que delícia se essa mula-acéfala da Damares, a fulana que viu o Filho-do-Pai no pé de goiaba, entendesse, por um segundo que seja, o seu espetacular lugar no fluxo da história toda? Imagine se por um segundo, um segundo que seja, esses tapados reformadores da moral e dos costumes se enxergassem no espelho da novela toda e entendessem que houve um antes e haverá um depois, e que milhares, milhares de estúpidos semelhantes tentaram o mesmo: consertar o que o outro deve ser na vida para se enquadrar nos preceitos do que quer que seja, e que falharam, falharam retumbantemente porque, afinal de contas, tudo é engolido pelo esquecimento?
Imagina que legal se todos soubessem da sua desimportância para o universo?
Sabe por que é legal fazer teatro? Não é tanto pela exposição em cima do palco, não. Para dar conta dessa vaidade da purpurina o Facebook e as selfies já estão aí para nos ajudar. É porque o mais legal é o antes de entrar em cena, os instantes que precedem o subir da cortina em que você tem a dimensão exata de que deverá repetir tudo o que foi combinado ontem. E que isso é um pavor e uma maravilha ao mesmo tempo. Porque é fácil entender que a sua interferência no processo todo é igualmente essencial mas também minúscula. E o que sobra depois dos refletores apagados? A angústia de ter que recolher os pedaços que sobraram para amanhã, mais uma vez e de novo, provar que a sua existência é uma mistura de tropeços, fracassos, sorrisos e conquistas. E que daqui a um punhado de meses tudo ficará para trás, uma nova cortina se erguerá para outro espetáculo que apagará o anterior.
Anotem aí: Cuidado com os atores! (Regina Duarte não conta por uma questão evidente de déficit de QI) Eles são infinitamente mais céticos - e por isso mesmo perigosíssimos! - que a soma de todos esses estúpidos da metafísica do além.
Viva o teatro!
...
....
Imagina que legal se todos soubessem da sua desimportância para o universo?
Sabe por que é legal fazer teatro? Não é tanto pela exposição em cima do palco, não. Para dar conta dessa vaidade da purpurina o Facebook e as selfies já estão aí para nos ajudar. É porque o mais legal é o antes de entrar em cena, os instantes que precedem o subir da cortina em que você tem a dimensão exata de que deverá repetir tudo o que foi combinado ontem. E que isso é um pavor e uma maravilha ao mesmo tempo. Porque é fácil entender que a sua interferência no processo todo é igualmente essencial mas também minúscula. E o que sobra depois dos refletores apagados? A angústia de ter que recolher os pedaços que sobraram para amanhã, mais uma vez e de novo, provar que a sua existência é uma mistura de tropeços, fracassos, sorrisos e conquistas. E que daqui a um punhado de meses tudo ficará para trás, uma nova cortina se erguerá para outro espetáculo que apagará o anterior.
Anotem aí: Cuidado com os atores! (Regina Duarte não conta por uma questão evidente de déficit de QI) Eles são infinitamente mais céticos - e por isso mesmo perigosíssimos! - que a soma de todos esses estúpidos da metafísica do além.
Viva o teatro!
...
....
Há mais espiritualidade dentro do teatro do que nessas biroscas-do-metafísico que botam um altar no palco e prometem a salvação da alma. Há mais chances de se salvar através da sensibilidade e da inteligência do que por intermédio da histeria servil por um Deus-Patrão levada a cabo por péssimos atores travestidos de funcionários do firmamento.
Por um mundo com mais Shakespeare e menos evangelhos...
...
....
Por um mundo com mais Shakespeare e menos evangelhos...
...
....
Penso na tristeza que deve ser construir monumentos, desses trecos que uma vez erguidos no espaço, o tempo haverá de preservá-los para além do seu criador. É comum passar desapercebido por essa monstruosa constatação? De que o prédio em que moramos há de permanecer, senão exatamente igual, ao menos fiel ao que sempre foi desde o seu início, com seus tijolos concordando com o concreto armado, seu perímetro em acordo com sua altura, mudando poucas coisas em seu caráter de coisa feita para durar, e durar para depois daquele que o criou, condenado a ficar pelo caminho? Dormirei hoje com essa melancolia aliada à alegria de existir para não durar, oferecer monumentos que explicitamente desmoronam diante de quem resolve habitá-los. É uma sorte contaminada por uma vaidade maravilhosa, eu diria. Porque assumir essa perenidade é sublinhar a importância que temos, uma vez que a distração do olhar pode fazer escorrer para sempre o brilho da nossa presença. Anunciamos a nossa morte somente para que os outros não desperdicem os intervalos que nos fazem vivos. Dizemos: aproveitem, somos deveras maravilhosos para permanecer ad-infinitum feito estátuas fincadas no chão. Somos arquitetos às avessas, trabalhamos para o desmonte, ou desmontamos antes mesmo de firmar trato com a ambiciosa eternidade das coisas concretas. E, talvez por isso mesmo, somos magnificamente concretos, inteiros numa medida mais digna que o maior dos espigões de aço e cimento dessa cidade lotada de monstrengos semelhantes, quase siameses.
Vou dormir com a certeza da beleza de minha profissão de ator de teatro, que não me poupa uma única gota de suor, um único músculo preguiçoso, tudo em direção ao mais completo esquecimento, ao instante que não assina contratos, não promete visitas futuras, não deixa heranças... Saldo de uma sensação de liberdade absoluta daqueles que, como eu, tem a benção de experimentar e viver a própria ruína.
Viva!
...
....
Vou dormir com a certeza da beleza de minha profissão de ator de teatro, que não me poupa uma única gota de suor, um único músculo preguiçoso, tudo em direção ao mais completo esquecimento, ao instante que não assina contratos, não promete visitas futuras, não deixa heranças... Saldo de uma sensação de liberdade absoluta daqueles que, como eu, tem a benção de experimentar e viver a própria ruína.
Viva!
...
....
Em tempos de histeria por conhecer a si mesmo, dizer aos outros quem se é, o que se sente e desejar exatamente o mesmo dos vizinhos: revela-te ou condeno-te (olha eu aqui revelando uma indignação minha!) não é pedagógica a ideia, ou no mínimo um refresco para essa ditadura da verdade que exige a soma 1 +1 = 2, que o ator seja um dissimulador, aquele que se esconde, não aparece, presta-se a representar o que ele não é pela simples razão de que o conhecimento sobre si mesmo é propositalmente falho já que todos os seus esforços estão direcionados a dar forma a um corpo que não pode ser o seu, a uma voz cujo timbre não combina com o natural dos seus dias? Essa ocupação com a periferia de si mesmo outorga ao ator uma alforria de ter de ser ele o tempo inteiro fiel ao que lhe passa na intimidade, e expor aos outros a enxurrada de sentimentos que, ao fazê-lo - sinal dos tempos! -, torna-o emblema de coragem e honestidade. E se a honestidade estivesse no extremo oposto, na capacidade de nada extravasar e manter total distância das tentações do que se entende por verdadeiro? Já dizia Shakespeare que o ator alcança a verdade sobre quem somos - o teatro é o espelho da natureza, o mundo é um palco -, mas, acredito, essa sentença não se dá pela correspondência de uma condição de integridade da alma. Ao contrário. A única verdade de que o ator dispõe diante de nós é a de que o homem, para sobreviver, articula todos os recursos da dissimulação de quem sobe ao palco para trabalhar no ofício próprio da dissimulação. A verdade indigesta é somente essa: o ator não diz quem somos, ele apresenta a quantidade infinita de máscaras, de personagens, que no correr da vida lançamos mão quer queiramos ou não. Talvez por essa razão o Facebook seja um perfeito cardápio da nossa total imperícia em sermos atores nos dias que seguem. Esse convite sempre sedutor que indaga 'o que você está pensando hoje?' seria a primeira coisa a ser subtraída de alguém que deseja emprestar-se à tarefa de representar qualquer papel. O pensamento do ator nunca é sobre si mesmo, tampouco sobre o outro. Quem monta um castelo de cartas de baralho não está ocupado com crise nenhuma, com nada abstrato e revelador da alma que fuja do esforço de tapar a respiração para que um único e minúsculo vento não desmorone todo o império erguido.
...
....
...
....
Assinar:
Postagens (Atom)