segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Aprendam: a pergunta mais idiota que se pode fazer a um artista é o que ele quer dizer com a sua obra. Se ele quisesse dizer alguma coisa ele diria, não fazia a obra. A pergunta mais idiota que se pode fazer a um ator é quem é a personagem que ele representa. Se ele soubesse quem é a personagem que representa possivelmente a convidaria para lamber um picolé na esquina, e não faria uma peça de teatro com a bendita personagem que lhe cabe. A pergunta mais imbecil que se pode fazer a um dramaturgo é o que a história dele contribui para a situação atual em que vivemos... Se ele quisesse contribuir com alguma coisa para a situação atual em que vivemos ele não escreveria história nenhuma e se candidataria a vereador, chefe de ONG, benemérito do Criança Esperança, apóstolo de ovelhas em alguma franquia do Templo do Salomão e etc

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Não é necessário postar foto do universo ao lado do tamanho da Terra para fazer alusão a nossa reles insignificância. Faça teatro. A sensação é a mesmíssima. O minúsculo do tablado onde se pisa é, talvez, ainda mais pedagógico. E justamente porque os pés estão bem fincados no chão. Prefiro a filosofia das coisas concretas àquelas outras que me escapam pelos dedos e fogem da minha escala visual. Sou desses que preferem abrir uma caixinha de música e olhar a dançarina inanimada que balia ao som da melodia. E depois fechar a caixinha. E ver a dançarina sumir junto com a música quando a caixinha é fechada. Saber que a dançarina só baila quando eu resolvo abrir aquela caixinha me dá uma sensação de poder e melancolia. De fracasso e sucesso. Tudo ao mesmo tempo. Depois disso, se você ainda se sentir o protagonista de qualquer coisa, aposente-se de tudo e volte ao ensino fundamental..., você não entendeu nada de nada, e há tempos que não entende nada de nada.

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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

No fundo da alma somos todos músicos frustrados. Nossa expressão é a tentativa de retornar a um ritmo, a dar cor a uma melodia, a raspar a composição de um movimento. Jogamos fora as palavras para saber se o que sobra por debaixo do verbo é alguma música esquecida, herdeira imediata do pulso que bate em nosso peito. Nietzsche estava certo, a origem da nossa tragédia é musical, e abrir mão da música é correr atrás da música que se perdeu ao abrirmos mão dela. Os grandes poetas só são grandes poetas porque desperdiçam palavras em favor do que sobra delas. Os grandes escritores e dramaturgos são exímios regentes de notas musicais numa partitura espelhada pelos contornos das letras no papel. Os bons atores sabem perfeitamente que o texto que cabe a eles são argumentos para que se cante o que existe como fundamento da personagem. A boa personagem, aliás, pouco se interessa em comunicar uma ideia tal qual a comunicamos quando queremos ser entendidos. A boa personagem nunca se faz entendida. A boa personagem se faz ouvida. No fundo da alma somos isso mesmo: loucos aspirantes para formar naipe em alguma orquestra que se encaixe ao desejo nosso de nada dizer.


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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tenho sorte por fazer teatro que não é teatro de mensagem. Tive sorte de ter me formado numa faculdade de artes que me ensinou desde o início que ou o teatro é coisa imaterial - e, por isso mesmo, mais concreta que um paralelepípedo - ou, então, é teatro pedante, ou teatro de gente cult, de gente acadêmica ou engajada em sabe-se lá qual ONG, ou teatro autorreferente, de gente que faz teatro para tentar se encontrar na vida. Mas também não sou pedante o suficiente para afirmar que há um teatro certo e um teatro errado. Mas sou espetacularmente pedante para cravar: há um teatro interessante, e outro teatro chato pacas. Desse último teatro, o chato pacas, eu sou vacinado até as orelhas.


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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Acho o aspecto emocional uma ferramenta poética importantíssima para o ator... justamente porque ela não serve para coisíssima nenhuma quando ele é ator. Não é uma maravilha ter uma coisa e saber que ela não serve para coisíssima nenhuma no exercício do seu ofício? É como se o tenista tirasse da sua mochila uma raquete de tênis e um macaco hidráulico desses de trocar pneu de carro. O tenista guarda de volta o macaco hidráulico e fica com a raquete de tênis. O que não serve justamente tem serventia para escolher o que deve servir. Eu acho uma pérola da descoberta saber disso. Por isso que eu guardo comigo a sete chaves todas as minhas lamúrias sentimentais, porque sei que se elas resolverem se dar ao luxo de sair por aí para dar uma volta, quem empobrece sou eu, ou o ator que imagino que sou.


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Um slogan de uma escola de formação de atores que diz que 'ser ator é sentir' explica sem defender tese nenhuma a razão pela qual a Susana Vieira é o nosso exemplo maior de atryz... Já tivemos Cacilda Becker nesse posto, já tivemos Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Bibi Ferreira, Marco Nanini... E pouco adianta contrariar meu argumento evocando o nome da Fernanda Montenegro. Ela é reconhecidamente e merecidamente uma sumidade. Mas é entre nós, gente do ramo. Falo da ideia geral do que se pensa sobre o ator. Do povo em geral que associa o RG à pessoa. Não é a toa que Janaína Paschoal é personagem do nosso tempo, que Marcelo Serrado esteja nos píncaros da fama ao interpretar um juizeco que advoga em favor do seu próprio sentimento. Assim como não é a toa que exista por aí campanhas de polvilhar  pelas esquinas. Admitamos: pertencemos a uma geração tapada até a tampa. Que idolatra tapados, faz propaganda de gente tapada, e forma gente tapada elogiando o ser tapado que podemos, com árduo esforço (porque não há nada que demande mais suor que a burrice), vir a nos tornar.


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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Discordo totalmente de quem sobe ao palco e pauta o que diz dizendo que a vó Tereza da última fileira deve entender o que se passa debaixo do refletor... A vó Tereza deve se interessar pelo que acontece debaixo do refletor, isso sim. Se a ideia é educar a vó Tereza, então que a vó Tereza seja gentilmente matriculada num cursinho de emancipação das qualidades cognitivas do intelecto, ou então conduzida para diante da televisão para assistir a um melodrama bíblico ou coisa afim. Aliás, as peças de que eu mais gosto são aquelas em que eu subo ao palco e eu mesmo não faço a menor ideia do que está de fato acontecendo. Se a plateia entender alguma coisa, que ela faça o favor de me explicar depois...
Viu, vó Tereza? Seremos colegas de curso!


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