segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Leio no jornal que um certo ator se interessou pelo 'mocinho' da vez - o mesmo papel de sempre da teledramaturgia - porque o personagem 'é real', como nós o somos também. Pois comigo é o inverso: papel bom é aquele que só existe para figurar debaixo da moldura do impossível, que veste roupas impossíveis, que fala coisas impossíveis de serem ouvidas nas esquinas da vida, que é grande demais para caber nas ruas, que pesa toneladas e mais toneladas ao ser carregado. Essa é a diferença essencial entre o teatro e a TV: o primeiro gosta de poesia, o segundo adora o Ibope.


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sábado, 1 de outubro de 2016

Eu sou ator. Ator de teatro. Minha vaidade está concentrada toda nisto: que os outros me vejam! Eu me contento perfeitamente em ser invisível a mim mesmo.


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Quem é revolucionário a ponto de dar-se ao luxo de poder sonhar jamais deixa-se ser manipulado, jamais vira massa de manobra, jamais vira gado de pasto, jamais cai nas graças da multidão virando um número dentre tantos. Peer Gynt estreia hoje. É um texto do século XIX que não foi entendido como teatro em sua época. O texto de Ibsen era um texto à frente de seu tempo. Era uma personagem à frente de seu tempo. Hoje continua assim. Hoje, em pleno período de elegia à Idade Média - não àquilo que a Idade Média tinha de bom, o que já me parece muito mais do que nós temos hoje, mas em referência à tudo o que nos amarra em raízes conservadoras - Peer Gynt continua sendo um acontecimento estranho, de rompimento de valores, de questionamento de tudo o que nos acostumamos a chamar de 'civilização'. É uma homenagem sobretudo ao teatro, que sempre - em todas as épocas - só existiu e existe porque jamais esteve distante de sua natureza transgressora. Nós, os bufões, os malucos, os sátyros, os palhaços, os atores que subimos diariamente ao palco temos o dever de sermos radicais na metáfora, e torcemos para que a poesia ganhe sentido de realidade na intimidade de cada um que vá até o teatro. O mundo se modifica de dentro para fora. Toda promessa que subtraia essa única verdade é mentirosa. 
Viva o teatro!



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A personagem sempre é mais bonita que o ator que a representa. Quando isso não ocorre é porque o ator é ruim. Ou porque a personagem é ruim. Ou, então, porque ambos - ator e personagem - são péssimos e merecem um ao outro.


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Quando me perguntam como é que eu faço para decorar tanto texto, eu me coço para não responder: 'e tu, que fala um tantão sem parar e sem se dar conta do que fala, normalmente falando coisa nenhuma, exigindo um esforço dez vezes maior do que o meu, que falo o que tenho que falar na hora que falo, e ainda tenho a sorte de emprestar a minha voz à voz de um autor infinitamente mais sábio que nós dois juntos?'... 
Minha tarefa é muito mais fácil, convenhamos.


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Eu tenho a melhor profissão do mundo. Finjo por ofício. E você, que finge tanto quanto eu só que à paisana, mentindo que diz sempre a verdade?



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Acho que se deveria medir um ator pela unha do dedinho mindinho da mão esquerda. Se ela parecer natural, então é porque todo o resto está errado.


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