sábado, 20 de agosto de 2016

Odeio atores que tratam a personagem na terceira pessoa. Odeio igualmente aqueles atores que elegem a primeira pessoa para se referirem à personagem. Na verdade, odeio atores.



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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A melhor invenção do teatro foi a máscara. A pior invenção do teatro foi a personagem. Sem a máscara, o ator passou a acreditar que pode ser mais importante do que a sua completa e declarada desimportância...


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O ator é o negativo. O que ele imprime não são as cores da paisagem, muito menos é ele, o ator, a paisagem em si. O ator é aquilo que se esconde, os cantos escuros, as sombras..., tudo aquilo que, por não conseguirmos enxergar, dá direito de existência àquilo que enxergamos.


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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Gasta-se tanta energia dizendo coisas para, ao final da empreitada, chegar-se à conclusão de que nada precisa ser dito. Teatro é fundamental por isso: ensina-nos a elaborar os silêncios, as sombras, os cantos de intimidades não-reveladas. É como se, quanto mais iluminados pelos refletores, mais rapidamente sentimos necessidade de correr para a surdina da penumbra dos bastidores.



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Não é curioso que tenhamos por ofício ser tantos quanto sabemos que jamais poderíamos ser? Mas, ainda mais surpreendente que isso é entender que por trás dessa aventura de personalidades múltiplas nunca nos despedimos daquele um que somos, desse um que desde o início fomos, e que escondemos em benefício dos disfarces que vestimos. Porque, a bem da verdade, só podemos ser tantos justamente porque é impossível ser tantos, porque mentimos que os somos todos, mas mentimos tão bem que enganamos, a nós e aos outros, e sem deixar de preservar esse riso contido de quem sabe que está sendo visto, e de que é preciso levar adiante a farsa toda, que é, no saldo final dos enredos, muito mais interessante do que a própria vida.
Se somos todos atores, é igualmente verdadeiro dizer que só aos atores de ofício cabe o direito de desfrutar dessa maravilhosa arte de enganar e de saber que se engana.



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Tenho dislexias severas para perímetros vizinhos e faro aguçadíssimo para lonjuras transcontinentais. Se me perguntam na rua como é que faz para chegar na rua onde eu mesmo deito residência eu enrolo-me todo e acabo por desculpar-me dizendo que sou novo na cidade. Agora, sou capaz de molhar o dedo indicador com uma lambida minha, oferecê-lo feito radar ao sabor do vento sudoeste, e apontar para que lado fica a Islândia.


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Quando o povo quiser lágrimas faça-o sorrir, quando o desejo for o de dar risadas, então, surpreenda-os com um silêncio desses de dar nó na garganta. Não dê nada de mão beijada para o público. Ao contrário. Promova expectativas e cumpra-as com ausências. Deixe que o espectador trabalhe. De preguiças já estamos mais do que saturados.


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