terça-feira, 14 de junho de 2016

Entrei no elevador e encontrei um sujeito elegantíssimo, trajado na base do terno dos negócios financeiros, tamborilando um celular mais ultra-power que o meu, exalando uma fragrância agridoce do sucesso na vida social. Devia malhar o físico também o tal do sujeito. Devia ter família, um cachorro e programas para as próximas férias. Um belo exemplo do que deu certo nesse mundão recheado por homo sapiens que querem dar certo. Já eu, entrei no elevador com a mesma roupa de ontem, meio descabelado e meio careca, com marca de pasta de dente na calça (nunca entendi quem consegue escovar os dentes sem babar a bendita espuma branca), e, ao desejar um tímido 'bom dia' ao meu companheiro de cabine elevatória, soltei um ligeiro e quase inaudível arroto matinal, fruto dos sucos gástricos récem exigidos pela labuta do desjejum. Devíamos ter a mesmíssima idade, eu e o sujeito do topete alisado (ele tinha gel no topete!), e pensei...:

Jesus, Todo Poderoso que lá de cima nos alumia, como é bom ser ator.


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Quem rege quem? É a música que rege o ator, ou é o ator o regente da música? A melodia é o que? Fruto do ritmo dos passos, ou só se anda depois que houver melodia para se poder andar? 

Ser ou não ser, eis a questão. (?)

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Eu que apreendi a mentir como ofício digo mais verdades que você que finge ser verdadeiro debaixo das mentiras que conta.

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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Tenho tanta vontade de ser tantos outros que sei que nunca hei de sê-los. Mas que maravilha que é ser esse alguém carente de identidades impossíveis. Se fosse eu todas elas não poderia amá-las tanto quanto as amo sabendo que estão distantes de mim. Sou ator não pela vocação de viver outras vidas. Isso não é ser ator. É exatamente o contrário disso. Sou ator para preservar a consciência e a certeza de que sou eu só comigo, eternamente vazio das substâncias que anseio por preencher-me. 

Ser ator é viajar para longe e sentir saudades do lugar de onde se partiu. E ao retornar, desejar nunca ter retornado. É viver em lugar nenhum, vivendo à distância o tempo em que foi permitido que vivêssemos em algum lugar.


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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Concentro em mim um pavor misturado com raiva mortal por quem diz que é no teatro que o ator 'se alimenta'. Como se o teatro fosse um refeitório, um lugar de idílio, de bonanças apetitosas e sedutoras, espécie de trampolim para sabe-se lá quais ares rarefeitos. Normalmente são turistas do teatro os que dizem isso, que relação nenhuma tem com o teatro, que pouco ou quase nada se interessam por teatro, que mentem descaradamente quando dizem que o teatro é o lugar deles, ou, ainda, que usam a grife de 'arte' que o teatro naturalmente estampa para uma autopromoção travestida de dedicação e suor ao ofício. Tudo balela. Teatro é outro departamento, nada afeito às idiossincrasias de quem é afetado pela ideia do que é ser ator de teatro sem sequer ter consciência do que é ser ator de teatro, ou mesmo saber o que é o teatro. Teatro é muito mais um lugar de esgotamento, de cansaço completo e total, lugar onde a energia é drenada feito sangria. Teatro não é pretexto para fazer brilhar os olhinhos de gente deslumbrada e maquiada pelo fino pó da fama e da imagem. Teatro é terreno de suicídios diários, voluntários e milimetricamente calculados.

Uma dica: vão todos lavar a louça da pia, e depois conversamos.



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Uma das baboseiras mais recorrentes é essa de que a arte espanta a timidez. É verdade que arremessar um pobre sujeito diante de uma plateia lotada o obrigará inevitavelmente a sambar com as ancas travadas. Mas isso é um choque de realidade, não um serviço que a arte presta ao pobre diabo que é tímido e tem vergonha de enturmar o seu nariz com os narizes alheios. Quanto a isso não é necessário arregimentar qualquer esforço extra, uma vez que é do espetáculo da vida tocar um samba e exigir que os passistas da avenida da existência rebolem até ajustarem-se à música. A arte presta outro serviço diametralmente oposto à esse: ela cultiva a incapacidade que temos de nos expressar normalmente, e, desse caldo de inadaptações, canaliza uma força impossível de se conter. A expressão é antes o resultado de um grito reprimido, impossível de ser gritado nas ruas, do que o fruto da espontaneidade do artista. O artista, o artista verdadeiro, é sempre alguém que faz a manutenção de uma certa obtusidade, alguém rarefeito aos paparicos efusivos e desinibidos das esquinas, abertamente recluso e ensimesmado. A expressão poética é a imagem e semelhança da lava incandescente que eclode de um vulcão. E essa lava só é potencialmente destruidora - como toda poesia deve ser - porque foi mantida no escuro, no silêncio, até o exato momento de dar às caras. 

Arte nenhuma se presta a desinibir ninguém. Muito ao inverso disso. O que desinibe é monitor de festinha infantil brincando de siga-o-mestre com a patota de pimpolhos histéricos..., fora isso, tudo bobagem e das grossas!


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sexta-feira, 3 de junho de 2016

O ator não é a personagem. Mas tem que haver personagem para que haja ator. Tudo é uma questão de perceber as realidades. A ideia do que é invisível é só isso: uma ideia, não tem realidade. O ator é a coisa real, e que só é real porque contém uma ideia que o faça ser real. Não existe um rosto sem máscara. E as máscaras não fazem sentido algum sem um rosto em que possam vestir. O desejo de querer interpretar uma personagem é coisa tão absurda quanto imaginar que as personagens necessitam de atores para serem vividas. Uma coisa já pertence a outra. Uma coisa nunca deixou de ser a outra.



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