sábado, 16 de janeiro de 2016

Quando um ator da imagem diz que volta ao teatro 'para se alimentar' ou coisa do gênero, eu replico:

- E eu vou dar um pulinho na TV ou no cinema só para ver se faço crescer ainda mais as minhas orelhas de asno...



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Queira acertar e você não acerta nadica de nada. Queira fazer a personagem e você não interpreta personagem nenhuma. Queira ser e você já não é. O ofício do ator é mais ou menos como um constante e exaustivo trabalho para sempre estar pronto para não querer nada...


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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Tudo que é íntimo demais é terreno estrangeiro ao artístico. Ou, caso o objeto de arte em questão seja resultado de alguma intimidade, é porque, sendo arte de genuíno valor, deixou de ser íntimo para virar outra coisa maior do que uma dor pessoal, uma necessidade particular, um preenchimento do eu. Se há loucura no artista - e eu acredito que há, e muita! - é uma loucura estrangeira ao artista, que vaza para o mundo ao grau máximo de anular o seu autor. Há uma confusão generalizada que mistura essa ideia romântica do entregar-se de corpo e alma - como se o ofício do artista fosse um constante exercício de revelação de quem é o artista, do que ele deseja comunicar, das suas ânsias e vocações, das aspirações sensíveis e projeções psicológicas que ele imagina funcionar como matéria fundamental para que haja um sentido e função em ser um artista. Como se ser um artista fosse agir como um canal onde o público converge para o que se passa dentro do artista. Penso exatamente ao contrário. Ser quem se é não é nenhum objeto de busca, tampouco razão ou argumento para reunir plateia ao redor de quem quer que seja. Já somos o que somos, e isso deveria bastar-nos. O esforço é outro, é impedir que eu apareça, que eu respire, que eu exista. E isso para que algo maior apareça, para que algo maior respire, para que algo maior do que eu exista. Se é verdade que o artista parte de uma inquietação íntima - o que eu acho óbvio demais para conjecturar a respeito - é também verdade que o artista deve necessariamente distanciar-se de si próprio, produzir vazios de identidade, cimentar o seu choro e o seu riso. Nossa tragédia contemporânea é uma tragédia do eu-mimado, que não só contenta-se em aparecer em público como, principalmente, faz da sua aparição um objeto de aplauso, de inveja, de admiração por quem ainda não teve coragem de usufruir da mesma terapia de extorsão pela qual sujeita-se cada vez mais aquele que pretende expressar-se.


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sábado, 2 de janeiro de 2016

Um bom texto de teatro te enquadra, nunca te liberta. Um bom ator encontra sempre meios de se enrijecer, nunca o inverso, evitando beirar qualquer espécie de naturalidade. Teatro é o terreno do falso. E todo falso já vem inscrito consigo uma escala bastante evidente de forças tangíveis. Não há metafísica nenhuma no teatro. Há magia. E a mágica é construção concreta, medida, testada e experimentada. O evangelho dos palcos é um só: o pó de pirlim-pim-pim. Todo o resto é a mais retumbante bobagem de quem adora procurar pelo em ovo.


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A personagem está na tensão dos olhos, no valor que se dá as pupilas, em quais medidas se arqueia ou não uma sobrancelha... Tudo é máscara. E Stanislavski era um charlatão de marca maior. Meyerhold me representa.


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Viajo para ficar comigo. Só comigo. A existência ordinária é essa excursão eterna cuja regra é ter de conviver, ter de deixar-se de lado para saciar as exigências do outro. Quando viajo, viajo para mim. Só para mim. Não quero conhecer ninguém, ter de haver com quem quer que seja, dividir verbos, sensações, risos ou choros com outra pessoa que não eu. Não tenho ímpeto nenhum de conhecer gente nova - e por que teria se gente é gente aqui ou acolá, na China ou no Alasca, em qualquer lugar? Viajo para a companhia de mim mesmo, para conversas silenciosas, caminhadas solitárias, paisagens refletidas de mim e que me esqueci de contemplar por descuido ou teimosia. Quando viajo para longe, pouco me importa conhecer a cidade. Ela, a cidade, é só um pequenino pretexto para que eu conheça a mim. Quando viajo, sou como uma orquestra sinfônica que ganha fôlego entre um movimento e outro. A música é a ausência de música quando eu viajo. É pela pausa, pela ausência, como eu entendo o verbo viajar. 

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Convidado por Dom Quixote para sentar-se à mesa do banquete, Sancho diz:

'(...) - Grande honra! - disse Sancho. - mas garanto a vossa mercê que, tendo eu de comer, comeria tão bem em pé e sozinho quanto sentado com um imperador. Ou, para dizer a verdade, saboreio muito melhor o que como em meu canto sem melindres nem cerimônias, mesmo que seja só pão e cebola, do que os perus e outras mesas onde me seja obrigado mastigar devagar, beber pouco, limpar-me seguido, não espirrar nem tossir se tiver vontade, nem fazer outras coisas que a solidão e a liberdade trazem consigo. Então, meu senhor, peço que essas honras que vossa mercê quer me conceder por ser adepto e praticante da cavalaria, sendo eu escudeiro de vossa mercê, sejam substituídas por outras coisas mais cômodas e mais proveitosas para mim. Mesmo que eu receba essas honras de bom grado, renuncio a elas desde já até o fim do mundo. (...)' 

Cervantes.



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sábado, 26 de dezembro de 2015

Acho os nossos atores maravilhosos. Digo os nossos atores de teatro. Sem um pingo de ironia. Acho os atores de meu país uns dos melhores atores do mundo. A miséria misturada ao calor nos dá uma tamanha dose de descompromisso com tudo que o que sobra é uma audácia despudorada, irresponsavelmente corajosa. Somos quase a reprodução de uma trupe de molambentos medievais, comediantes desesperados em busca de um lugar para montar nosso palquinho mequetrefe. Mambembes atrás de um bendito prato de comida que justifique o suor despendido. Empurram-nos para a corda bamba e desde cedo aprendemos na marra a sambar para não cair de vez. E quando caímos é só para voltar lá no alto de onde despencamos. Indo assim, aos trancos e barrancos. Essa ausência de tudo é o que nos torna espertos, talentosos e humildes na medida do aceitável. Acho esses atores gelados da civilização polar um porre. Principalmente esses atores da seita stanislavskiana do tal do MÉTODO. E é quase uma seita universal por aqui. São quase sempre atores afrescalhados, cheios de não-me-toques, quase possível inalar um perfume de diva afetada que brota de seus cangotes instruídos. Carregam agentes a tiracolo que os agenciam feito donzelas necessitadas de um lencinho de seda bordada arremessado ao chão para que atravessem a poça suja... Ah não! Gosto dos meus atores. Atores que são uns dos melhores atores do mundo... (Com a devida exceção feita aos atores ingleses, esses sim os filhos legítimos dos mais brilhantes tablados de ontem, hoje, e sempre).



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