quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Há esse texto de teatro cuja autoria é minha e que é um grande libelo contra os musicais contemporâneos. Porque não há nada mais insuportável do que ser um virtuose num mundo abarrotado de trecos que incitam ao virtuosismo. O texto é seco. As personagens são ocas. As cenas não carregam purpurinas. E a apoteose é absolutamente sem graça nenhuma.

...


...
Acho a coisa mais estranha do mundo quando dizem-me 'gostei do seu trabalho'. É quase uma ofensa distraída de simpatia. Sou ator. Nunca na minha santa vida ocorreu-me desperdiçar tempo trabalhando.


...


...
O mau ator sempre tenta chorar, repare! O péssimo ator consegue.


...


...

domingo, 6 de dezembro de 2015

O ator contemporâneo, parece-me, é o emblema supremo do vazio ao qual chegamos. Símbolo oco de uma era do marketing e da propaganda, é ele, o ator contemporâneo, o protagonista de tudo. Convocado a aparecer, a opinar, a servir de exemplo para campanhas humanitárias, a dar bom dia quando é bom dia - e boa noite quando é boa noite -, é ele, o ator contemporâneo, uma espécie bem lapidada de bom moço de dentes brancos e cabeleira penteada. E revela-se o tempo inteiro. O ator contemporâneo, assim como o cidadão ideal que atravessa as nossas ruas de hoje, é alguém cuja intimidade é devassada em praça pública porque é obrigação verter lágrimas e sentimentos ao mundo. E é admirável quando o ator contemporâneo sente, diz a verdade, abre-se em suas entranhas em plena praça pública. É lei convocar o outro para testemunha daquilo que eu sou, sinto e penso. O ator, que antes escondia-se porque era tímido, retraído, avesso à luz, agora não abre mão de um refletor que o siga até quando decide ir comprar pão na padaria da esquina. A máscara que o escondia porque era função do ator esconder-se para dar passagem à personagem, hoje é quase apetrecho de decoração. A personagem virou consequência, não matéria prima da mentira da qual a poesia é forjada. Aliás, qual poesia que se sustenta hoje? Quem são aqueles que desejam encantar-se? Há encanto que sobreviva a tanta megalomania do ego dilatado?
Triste do ator que aparece e não reconhece o poder maravilhoso da sombra, do silêncio, do anonimato.


...



...

sábado, 5 de dezembro de 2015

Saímos sempre de cena. Sumir para um ator de teatro é a coisa mais natural do mundo. A rigor, existimos só para isso: para sumir. Os entreatos de aparições são sentenças programadas de sumiços iminentes. Para nós, atores de teatro, a morte é experimentada a todo instante, a cada palavra perdida no espaço, a cada troca de luz, a cada movimento da cortina. O eterno para nós, atores de teatro, é a exata medida dos esquecimentos que deixamos impressos em cada palmo dos palcos onde pisamos. Nosso legado é a memória de que um dia existimos, sem desejos outros de impérios permanentes, sem registros fora da lembrança, sem legados infinitos. Temos a sorte de ver a vida sendo vivida dentro de um ofício que não deixa enganar a real essência da natureza humana. É tudo de mentira! Nossa única transcendência possível é talhada na matéria concreta. Nosso evangelho é impresso nas folhas da imaginação e lido com os lábios zombeteiros da criança que compreende a insignificância de tudo quanto é tido como sério, grave e urgente. Somos todos nós, atores e não atores, ridículos e maravilhosos ao mesmo tempo. Crápulas e santos. Sábios e mentecaptos. Cínicos e ingênuos. Ser ator de teatro é conviver com o desespero de se saber minúsculo frente ao tamanho do mundo. Personagem dentro de um palco maior que estabelece qual máscara é a mais adequada para determinada ocasião. E é por essa consciência, a certeza de nossa espetacular impotência, que uma grandeza de encher os olhos faz-se brotar dentro de cada um de nós. Que sorte a minha essa a de ser ator.  

Marília Pêra, uma das maiores do nosso teatro.



...




...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Eu faço o papel, eu não sei o que é o papel. E pouco me interessa sabê-lo. Tivesse eu a consciência do papel a ponto de dizer ao mundo o que ele é, não seria ator. Os acadêmicos são peritos em explicar coisas a si mesmos e aos outros. Os atores não explicam nada, nem a si próprios, tampouco aos outros. Os atores só fazem. E é necessário desenvolver uma certa ignorância voluntária - ou uma inteligência nada conceitual - para simplesmente fazer o que se precisa fazer sem precisar saber o que se faz.

É sempre uma idiotice sem tamanho entrevistar um ator. O pipoqueiro da esquina do teatro seria mais hábil em dar uma entrevista sobre qual assunto seja.



...




...

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O bom ator faz uma única coisa: bota a história para andar. O bom ator torna-se bom porque sabe perfeitamente que a história o precede. E é só ela que importa. E se não houver um boa história para contar, o ator, ainda que seja um bom ator, junta-se à história, e ambos, história e ator, tornam-se inseparavelmente péssimos.


...



...