sábado, 12 de setembro de 2015

O bom personagem sempre diz ao ator: 'cale o bico! Não emita opiniões! Seus sentimentos são indiferentes! O que viveu antes não importa em nada! Nosso trato é o seguinte: macaqueie! Mas macaqueie somente o suficiente - sem exageros!, faça vibrar essas benditas cordas vocais, e, por fim, caso sinta uma vontade insuportável de espirrar, espirre oras!... O restante é todo comigo.'

- Os bons personagens sempre assassinam os atores. Esses são os bons personagens. Os excelentes atores, por sua vez, são vítimas exemplares. Os péssimos personagens e os péssimos atores dão-se sempre as mãos. São ambos, os péssimos personagens e os péssimos atores, enamorados eternos.


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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Como o vento. 
Shakespeare é uma enorme árvore cujas palavras pairam penduradas em cada um de seus galhos. Nós, atores, somos o vento. Como se fôssemos o vento, percutimos as extremidades dessa enorme árvore, fazendo, então, uma enxurrada de verbos, adjetivos, substantivos, conjunções mil, interjeições infinitas, rimas e sentenças, enfim, vibrarem na mesma potência com que o vento, invisível, fere o cume dos eucaliptos em dias de ventania. Nós, atores, somos como o vento, invisíveis em sua forma habitual, sem identidade própria, escondidos por detrás da proteção da máscara. Se aparecemos, é para repetir a força do vento, para fazer a folhagem farfalhar, para dar passagem ao turbilhão de textos dessa frondosa e espetacular árvore shakespeariana...


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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Estou num cartório. Num desses cartórios onde as pessoas entram para carimbar papéis e provarem que são de fato quem dizem que são. Entrei no cartório sem motivo algum. Sou quem sou e não tenho papel nenhum para carimbar e provar que sou esse, de fato, quem escreve essas linhas imprestáveis. Ao menos até quando me provarem o contrário, sou esse mesmo. Continuo sendo esse mesmo. Quando sinto que sou um miserável, que não valho um vintém furado de latão enferrujado, eu costumo fazer exatamente isso: levar as minhas pernas até o cartório mais próximo, sentar numa cadeira, e deitar os olhos nessas pessoas que carimbam papéis para outras pessoas que como eu precisam provar que são quem de fato são. Hoje eu não preciso provar patavinas nenhuma. A única certeza é a de que eu não sou tão miserável quanto pensava que era. Isso eu consigo provar. Mas só agora. Só depois de ter levado as minhas pernas a esse digníssimo estabelecimento onde as pessoas carimbam papéis para darem aos outros o nobre direito de existir com a legitimidade que toda alma nobre merece...



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O violino está para a personagem assim como o arco está para o ator. E assim como o arco já é o próprio violino, o ator já é a própria personagem. O erro é querer tocar o violino. O erro é querer interpretar a personagem. O arco e o ator, é aí que é preciso investir atenção. O violino e a personagem já estão, desde o princípio, prontos.




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sábado, 5 de setembro de 2015

O ator se salva pela repetição. O ator repete-se sempre. É através da repetição que o sentido maior do seu ofício se realiza. É ele, o ator, uma máquina de incansáveis repetições. Hoje as luzem apagam-se para o mesmo espetáculo repetido ontem. O mesmo espetáculo que amanhã irá repetir-se uma vez mais. E terminada a semana, uma repetição da semana anterior, a semana seguinte promete seguir repetindo o mesmíssimo espetáculo, e assim sucessivamente, e até que o conjunto dos meses formem um apanhado geral de repetições. Uma temporada de espetáculos para o ator é uma coleção repetida de repetições. É evidente que há quem diga que tudo isso é falso, que não há repetição alguma, que cada noite é uma noite, que o ator nunca carrega o mesmo de si para todas as sessões. E é evidente que isso é verdadeiro. Mas só é verdadeiro porque há uma moldura única onde encaixa-se um mundo completo de contornos imutáveis. O ofício do ator compreende precisamente esse esforço de recuperar e manter uma estrutura prévia, bem acabada e ensaiada. Naufraga, evidentemente. E naufraga porque sua tarefa é sempre impossível, uma vez que é impossível engendrar uma repetição perfeita daquilo que se imagina um espetáculo ideal. Mas o ofício é justamente esse: o de permitir-se naufragar recorrentemente pela recuperação das fundações de um ideal inalcançável. É por isso que a repetição para o ator tem peso igual ao de um mantra espiritual. É na repetição que o ator se agarra. É sempre um desejo de tornar-se o que era, ou o que foi. O tempo do ator não é o tempo do presente ou do futuro. É um tempo de passado, mítico, de lembrança pura, sem contaminações com as intercorrências do instante em que aparece ao vivo aos olhos do espectador. E é evidente que aqui ele naufraga mais uma vez. Porque é imperioso que o ator saiba lidar com aquilo que lhe apresenta o instante. E é nesse intervalo entre o que era e o que é preciso ser que o ator desequilibra-se... Mas desequilibra-se como o faz qualquer um na vida. A repetição dos dias nada mais é do que uma metáfora maior daquilo que se repete dentro do teatro. O ator se salva porque experimenta na segurança do campo simbólico aquilo que o cenário dos dias muitas vezes cega aos olhos do cidadão comum. A repetição feito ladainha, reza sistemática, cenas sucessivas, é uma espécie de revelação do nosso real tamanho - dentro e fora da cena -, sempre menores frente àquilo que previamente sobrevive a nós... Repare nas carpideiras! A grandeza das carpideiras não está em chorar por defunto algum, mas em repetir sistematicamente as mesmas lamentações. É a métrica que salva a alma! 

Ser ator é sobretudo um exercício ético e filosófico. A estética é consequência.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Foi me dado o talento, ou o azar, de emocionar-me com as coisas que não existem. Um movimento de uma sinfonia, as cores impressas na paisagem pintada de um quadro, o parágrafo de um livro, a tristeza de um palhaço, um movimento de dança... Tudo isso me é fulminante. Sinto dor no coração com tudo aquilo que me convida a afastar-me da vida. As minhas lágrimas são fruto de metáforas. O meu riso igualmente é medido por contornos que não interferem em nada no fluxo ordinário dos dias. Eu mesmo escolhi como ofício a prática daquilo que nos convida a esquecer das fronteiras miseráveis de nossa existência. Tornei-me ator. E tenho absoluta certeza de que sou ator não por haver escolhido tornar-me ator, mas por falta completa de escolha. É um fardo ser ator. Mas um fardo maravilhoso. Ter o direito inalienável de gozar das intermitências daquilo que já veio a nós como contrato assinado é coisa que não cabe em valores financeiros. Crise econômica nenhuma abala um ator. Nossa vida é outra vida. A vida, essa primeira vida conhecida por todos, incluindo nós, atores, ela própria, a vida que somos obrigados a viver, sempre me pareceu um equívoco bastante suficiente para que eu pudesse importar-me com as suas recorrentes tragédias. Mas, e quando as pontas dos dois extremos aproximam-se de tal maneira coincidente que a dureza da realidade ameaça a mais pura das belezas de não conseguir alçar voo? Amanhã volto ao teatro para mais uma semana de Tempestade, o último e incrível texto escrito por Shakespeare. A história de um mago demiurgo que provoca um naufrágio de mentira. Próspero arma um teatro em busca da sua redenção através do perdão daqueles que no passado o fizeram mal. O mundo é um palco. Os ponteiros acertam-se na brincadeira de fingir um desastre. O mundo fora dos eixos de Hamlet é equacionado pela força da paz e pelo perdão. Shakespeare despede-se do teatro dando um voto de confiança e amor ao homem. O mesmo homem que por tantas peças o inspirou a derramar sangue na pele de personagens tirânicos. Mas tudo, enfim, parece correr para um destino comum. A vida é um sopro soprado pela boca de um idiota e sem sentido algum. Ou talvez sejamos todos feitos da mesma matéria efêmera e etérea dos sonhos, desmanchando-nos no curto período que dura um estalar de dedos. Nesse dia de hoje, impossível não lembrar-me de Adorno quando o filósofo pergunta-se sobre as chances da poesia sobreviver à Auschwitz. Impossível não lembrar-me do menino sírio de apenas três anos afogado na praia. Afogado de verdade. Impossível não pensar em mim, que tenho por dever inventar afogamentos diários. O que sou eu? Um canastrão distante dos acontecimentos que deveriam arrebatar-me? Ou já sou eu, sem o saber, um arrebatado desde o princípio? Quem domina quem? A vida a mim, ou eu à vida?

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Suassuna e Shakespeare são irmãos. O sertão do primeiro é 'o mundo é um palco' do segundo. Ambos são artistas da materialidade do teatro, da poesia forjada na mentira das tábuas do palco. O medievalismo de Suassuna repete-se nas fábulas sempre circulares e fantásticas do Bardo inglês. Há um microcosmo mítico latejando em ambos os autores, acompanhado por personagens arquetípicos que transcendem qualquer psicologismo ou tentativa de aproximar a vida da arte. A arte vence em ambos. E só vence porque alcança a vida, senão a particularidade imediata dela, a sua essência interior, imutável. Suassuna e Shakespeare são dois monumentos teatrais. São, ambos, teatro puro. E deveriam, ambos, ser exercício obrigatório para artistas dessa nossa geração tomada pela baboseira da intimidade, do eu-afetado, do preenchimento de uma individualidade que é sempre ínfima e desimportante frente a qualquer máscara poética.


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