terça-feira, 1 de setembro de 2015

Há uma ética fundamental no distanciamento, nessa prática de não identificar-se, de estar à margem para ver e sentir o que há do lado oposto à margem onde se está. É como o ator que entende a sua personagem como um monumento artificial, estrangeiro a si próprio. Esse intervalo entre um e outro, como a distância entre uma margem e outra, é o que permite o verdadeiro conhecimento, aquele que usa o coração não para tudo deglutir e apropriar, mas para reconhecer que só quando há oposição é que é possível saber o que há de comum, aquilo que pertence ao meio. Afinal de contas, o rio não seria um belo rio, sequer um rio qualquer, não houvesse duas margens opostas e contrárias que o emoldurasse e fizesse correr suas águas...



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Meus impérios todos são de carta-de-baralho. Desmoronam fácil... Mas erguem-se tão rápido quanto tombam. Vario entre o Rei de Copas e o Valete de Espadas... Às vezes faço as vezes de Dama de Ouros também, mas só quando o mar está para peixes. O Ás eu sou sempre - seja de qual naipe for! Vivo ou morto, sou uma canastra real.



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Penso naquelas profissões que distribuem tristezas e alegrias em doses homeopáticas até o instante em que o tempo esgote tantas temporadas de risos e prantos. E penso agora no ofício do ator, que a cada santa noite, após o apagar das luzes, faz drenar todas as energias até a última gota de suor. O ator sai de cena desejando aposentar-se imediatamente. Nunca mais existir depois de tanta existência concentrada. E é essa enxurrada de tantos anos em poucas horas, um viver à vista e nunca em prestações, o que precisamente lhe confere uma dignidade única.



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segunda-feira, 31 de agosto de 2015




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Shakespeare é a coisa mais próxima do que se pode imaginar de uma orquestra de vozes, cores, tipos, melodias e formas. Somos todos instrumentos de naipes diferentes de uma mesma e única orquestra. Ninguém rege nada... Somos todos regidos.





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Que Deus me preserve o truque
Que o truque esteja sempre comigo
Que do truque eu possa sempre fazer uso e fazer do truque a minha ferramenta de trabalho
Que ninguém peça-me para ser verdadeiro
Que a vida nunca atravesse a fronteira artificial da arte
Que eu possa sempre mostrar-me artificial dentro dos domínios da arte - Essa é a única verdade que preservo
Que eu sempre - sempre! - seja um truqueiro de carteirinha
Um renomado falastrão
Que Deus me afaste do auto-conhecimento
Quero ver-me por fora, nunca por dentro
Sou oco!
Que eu seja sempre - sempre! - oco
Que o apelo à psicologia do invisível engesse e me alforrie das abstrações da alma
Que o meu corpo seja o meu monumento de sossego
Que minhas lágrimas e meu riso brotem da máscara forjada pelo truque
Que o teatro sempre me proteja dos adeptos do real, dos anunciadores das esquinas, dos pregoeiros da verossimilhança
Que o teatro e o truque sempre - sempre! - me acompanhem
Para todo o sempre...
Amém!



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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Quando Shakespeare diz que o mundo é um palco, não é figura de linguagem. Para nós, atores, é coisa bastante concreta. É saber que o protagonista de Shakespeare são os arredores, as tábuas enfeitiçadas por sua bruxaria, que é, também, algo concreto e produzido. Portanto, mais importante do que pensar num trabalho de interpretação de atores, parece-me, Shakespeare convoca-nos ao desafio de produzir bruxaria. E quem dela toma parte, parece-me também, tem o dever de deixar-se contaminar por ela. Sempre carrego comigo a mais profunda convicção de que o bom ator que entra em contato com Shakespeare não preocupa-se em nenhum momento em dar conta de interpretar a sua personagem. Antes, ele sabe que é impossível responder à tamanha dimensão humana e poética ao singularizar a personagem dentro das reduzidas dimensões que lhe cabem como artista. O bom ator shakespeareano faz como Shakespeare pede, delega ao palco - e às bruxarias enfeitiçadas pelo palco - o desafio de o levar adiante em sua jornada.


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