A beleza de se fazer teatro é que se trabalha quando os outros, que trabalham, estão de folga. E nós, que fazemos teatro, trabalhamos num tipo de trabalho que os outros, que trabalham, nunca conseguem dar conta de entender por completo. Porque o nosso trabalho, o dos atores de teatro - ainda que infinitamente trabalhoso - esgota um outro tipo de departamento que ninguém, a rigor, entende a sua essência. Porque é comum àqueles que trabalham em qualquer outro tipo de trabalho que não seja esse que nós, atores de teatro, trabalhamos, associar o trabalho à miséria que é ter de trabalhar, e, assim, continuar trabalhando até que a soma do dinheiro que possa vir a cair na conta seja suficiente para, um dia, deixarem, finalmente, de precisar trabalhar, e, assim, poderem desfrutar de uma folga eterna. Esse é o departamento que faz com que nós, atores de teatro, sejamos privilegiados. Porque se trabalhamos é porque não precisamos trabalhar, e sim porque é fundamental que trabalhemos. E justamente trabalhamos enquanto os outros, que trabalham, estão de folga, quando a esquizofrenia tão típica àqueles que trabalham oferece uma breve pausa. É essa pausa que compete a nós, atores de teatro, conferir sentido. Porque de alguma maneira nós, atores de teatro, somos adeptos da pausa, da interrupção do ritmo frenético do mundo, ansiosos por remar contra a correnteza das equações de causa e efeito. A beleza de se fazer teatro é também a beleza de poder ser ator de teatro. Quando tudo e todos, incluindo nós, oferecemos, experimentamos e compartilhamos... a pausa.
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sábado, 25 de abril de 2015
sexta-feira, 17 de abril de 2015
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Há coisa mais estupidamente vazia de criatividade do que um ator emprestar-se a ser uma personagem de si próprio no ofício de sua exposição pública? Há coisa mais fora do eixo do que o ator imaginar-se mais interessante do que a personagem? E, virando ele próprio uma personagem - onde já não há personagem alguma - estereotipado naquilo que é, ou acredita ser, não seria isso, então, duplicar a estupidez? Não seríamos nós, do tempo presente, os representantes mais estúpidos desse ofício que em tempos passados escondeu forçosamente o ator atrás da máscara para que a poesia viesse à tona em menosprezo à pele bem cuidada do seu intérprete?
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O teatro e o ofício de fazer teatro é o subsolo de tudo, o andar debaixo, a terra primeira onde aprende-se a pisar para depois esquecê-la em função das purpurinas e glamoures da vida. Mesmo quem não é e nunca foi ator, ainda assim, faz teatro, e fazer teatro por ofício é esclarecedor por conta disso, porque somos o tempo inteiro formados por matérias ficcionais, camadas sobrepostas de mentiras adquiridas, bufões a espreita de um palco para desfilar solilóquios e angariar aplausos do mundo. Fazer teatro é pedagógico porque é lá que se compreende a precariedade de tudo, a indiscutível tragédia de se saber perecível, impotente para as loucuras de poder, status, fama e vaidades outras. O ator de teatro é um cientista que sempre falha na tentativa de descobrir a cura de uma doença rara. E ainda bem que falha. Falha para continuar falhando. Fazer teatro é um privilégio e uma grande dor ao mesmo tempo, é entrar em contato com a consciência que nos impede de mentir, torna-nos frágeis para a vida, sensíveis ao descalabro das farsas a que somos obrigados a tomar parte. Mas também é encorajador porque viver a fraqueza permite redirecionar o pouco de força que nos alimenta, saborear os risos do absurdo de cada esquina, economizar energias para as cenas que realmente mereçam nossa atenção. Fazer teatro é emprestar o corpo ao tempo concreto, atingir e ser atingido pela dificuldade de dar conta do impossível. Todos os outros protótipos modernos daquilo que virou o ofício do ator, aqueles que passam longe do palco para defender seja lá que imagem protegida por sabe-se lá qual suporte, não são atores na acepção da palavra, ou são, como todos nós o somos, mas destituídos, ao menos, da certeza de sua ridícula condição. Já é um universo de distância.
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sábado, 11 de abril de 2015
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Cada personagem aparece como um bloco enrijecedor daquilo que já nasceu limitado por sua rigidez natural, ou seja, o próprio corpo. É como se a personagem surgisse para dobrar a dificuldade de existir, multiplicando as engrenagens em dois: aquela inerente ao intérprete, e a outra, ficcional, forjada por sobre essa.
- Não há nada de orgânico, de libertador. É tudo absolutamente artificial, enclausurador. Mas há aqui também uma liberdade, talvez uma liberdade mais essencial, poética. É-se mais livre na medida em que se reconhece tais fronteiras que o limitam a ser outro senão aquele que é moldado, e moldável.
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sexta-feira, 13 de março de 2015
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Não há problema algum em ser parte integrante de um mundo idiota, com idiotas brotando pelos ladrões da esquina, emitindo opiniões idiotas que fazem jus à alma de quem tipicamente nasceu para conferir à idiotice um talento de tão admirada valentia - repare: todo idiota tem a plena convicção de que idiota são os outros, nunca ele mesmo. A bem da verdade, é até preferível conviver com idiotas. A idiotice é multifacetada, maravilhosa em sua diversidade. Há aí, nos meandros estúpidos da idiotice, materiais infinitos para inspirações infinitas! Porque esse é um dado importantíssimo no ser-idiota: ele é capaz de gerar fagulhas de inspiração. Arrisco a dizer que é até possível amar um idiota por ele ser exatamente quem é: um idiota. Nada mais insosso do que rodear-se de ilustres senhores, de inteligência inquestionável. Não! Personagens inteligentes são tediosos. A inteligência é uma só, sem surpresas, tão ao contrário do mar de camadas que a idiotice cavoca em seus fiéis súditos idiotas. E se a inteligência alimenta o espírito - e quanto a isso não há o que contradizer - a idiotice, por outro lado, dá ignição nos motores da análise crítica, alimentadora da ironia, dos sarcasmos, da real face do ser humano, que em sua esmagadora maioria nasce idiota, cresce idiota e morre idiota - isso quando, após a morte, não celebra-se com saudosa reverência a viva lembrança de uma idiotice admiravelmente eterna, fonte de produção de novos e revigorados seguidores idiotas. Portanto, um viva aos idiotas que tanta alegria nos trazem! Um viva também ao idiota que somos quando idiotas sabemos que somos. Mas aí já deixamos de ser idiotas. Lembrem-se: um idiota sábio de sua idiotice é carta fora do baralho, torna-se chato, repetitivo, pedantemente incisivo em sua ferina visão a respeito desse teatro maior. Sei que sei que sou idiota. E esse é o único senão de se viver entre idiotas - são poucos os que entendem a beleza de quem é idiota sem o saber.
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Aos atores cabe uma consciência privilegiada: a consciência da periferia. Porque uma prática típica da nossa raça - atores ou não atores -, é a de inventar substância onde só há periferia. E o ator é um ser periférico por princípio. O ator não tem substância nenhuma, só vazios. E de vazios são compostos tanto os atores como todos os outros que não são atores, mas que por inconsciência da periferia, atribuem valores de substância àquilo que não suporta substância alguma. Quando dizemos do tal fulano que ele é um fulano excepcional, esse adjetivo maravilhoso não é outra coisa senão uma mentira das grossas. O fulano será sempre só fulano, o pouco e o muito que a providência divina lhe deu a sorte de usufruir. O resto é mentira, ainda que tratada como substância, argumento para se proteger sabe-se lá qual ideia de ética e caráter. E a mentira é a matéria prima do que é periférico. Que também é a matéria prima do ofício do ator. Mas nós, em regra geral, nunca advogamos em favor de mentira alguma. Muito ao contrário. Dizemos que somos quem somos, ou seja, verdadeiros para conosco e para com o mundo (caso um ator defenda isso, ele é, sem dúvida alguma, um péssimo ator). E aí já mentimos, ainda que pensemos estarmos sendo verdadeiros, substanciosos em nossa conduta moral. Tudo mentira! Imaginar ser quem se é é de um cinismo ridículo. Ninguém é quem é. Só somos aquilo que nos é dado a ser, e, por isso, faz-se necessário aprender a sambar de acordo com a música, a vestir o figurino que melhor adapta-se à farsa. O ator sabe que mente. O ator mente para ser verdadeiro porque sabe que é impossível raspar qualquer tipo de verdade. Só é verdadeiro porque mente bem, e se mostra transparente em sua mentira. É pela mentira, pela periferia que o ator existe. Bendita a sorte de nós, atores, de sermos atores, e, por consequência disso, podermos rir de todos aqueles - e de nós mesmos quando fraquejamos - que povoam-se de atributos de substância sem desconfiar que a única trama possível nessa vida é a tragédia de uma identidade imaginada, nunca fiel à verdade nenhuma.
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quinta-feira, 12 de março de 2015
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Acabo de ver um desses atores pela TV. Um desses atores cujo talento não sabemos ao certo qual seja - ou talvez aí está justamente o motivo de tudo: a carência completa de qualquer talento -, alçado ao posto dos atores de destaque do Olimpo da teledramaturgia. Porque essa é a vantagem de ser ator nos dias que seguem: a absoluta não necessidade de ser ator. Sorte a qual os médicos, por exemplo, estão longe de se submeter. Os médicos, e também os engenheiros, e os advogados e os arquitetos também. Todos eles são o que são. Um médico precisa ser médico para ser médico. O engenheiro necessita tornar-se engenheiro para ser engenheiro de fato. Advogados e arquitetos, por sua vez, só são o que são: advogados e arquitetos, porque alcançaram um dia o direito de tornarem-se advogados e arquitetos. Já com o ator é diferente. O ator não precisa ser ator. Qualquer pobre diabo é ator. Qualquer pobre diabo vira ator. Para ser ator basta virar ator. E para virar ator basta desejar tornar-se ator. É uma voz íntima que diz: tens vocação para ser ator, e isso já basta, é mais do que o suficiente. É um trato de si para si mesmo, e dane-se o mundo. E não demora a conclamar-se uma plateia imensa para estar diante desse ator que é ator porque um dia quis ser ator, e ator é agora. Todos o chamam de ator. Então porque ele, o ator, haveria de duvidar de quem ele próprio acredita que seja: um baita dum ator alçado ao posto dos atores de destaque do Olimpo da teledramaturgia? Mas ele lá está, é um treco à serviço de um tanto de outros trecos tecnológicos, perdido no meio de uma paisagem onde esperam que o seu charme de ator componha com o cenário natural escolhido para deleitar os telespectadores no início dessa que será a grande nova novela. Só diferente daquela outra que passou porque essa novela agora é a nova novela, ainda que tenha ela tudo do que a antiga novela tinha: os mesmos protótipos de atores que viraram atores por força do ânimo interno e apelo às carícias comerciais, a mesma expectativa de inaugurar uma nova maneira de repetir as mesmas coisas. Hoje é muito fácil ser ator: basta não sê-lo.
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